A Amazônia, o arquiteto e o poeta

Publicado em: Revista Casa Cláudia, Maio/1998 - Por Isabel Vieira


Dividindo-se entre duas casas — a de Barreirinha, criada pelo amigo Lúcio Costa, onde mora; e a do Andirá, onde escreve –. o poeta Thiago de Mello vive em idílio com a floresta. Para contar a história desse romance a jornalista Isabel Vieira e o fotógrafo Pedro Martinelli se uniram na aventura de viajar de barco pelo rio Amazonas

Rumo ao coração da floresta

Às 7 horas de um sábado chuvoso — é fevereiro, começa a cheia –, o Taba zarpa de Manaus. No comando está o capitão Almir, amazonense de 22 anos, que domina como a palma da mão o mundão de água em que vamos nos aventurar. Leva-se dois dias neste barco, movido a motor diesel de 76 HP, para vencer os 400 quilômetros até Barreirinha, no Paraná do Ramos — braço na margem direita do Amazonas. Um táxi aéreo faria o percurso em uma hora e meia de vôo. A vantagem é que o Taba é a “casa” flutuante que nos hospedará na visita a Thiago de Mello, com confortos como banheiro, beliche, fogão, freezer e, à noite, até ar condicionado e televisão.

Almir e o fotógrafo Pedro Martinelli são companheiros de muitas viagens e imagens. Há quatro anos navegam no Taba, em busca de flagrantes do homem amazônico. É fácil entender seu fascínio pela região quando você se vê dentro do cenário deslumbrante. E mais fácil ainda acostumar-se ao banho de chuveiro no convés, com água do rio (morna), às picadas de mosquito (poucas) e ao forte calor (amenizado pelo vento).

A “estrada” que leva à morada do poeta é um labirinto de água na moldura verde, pontilhado de ilhas, sol, nuvens, pássaros e estrelas. O Amazonas se abre em paranás — braços entre uma ilha e a margem, tão longos e largos que ganham nome próprio –, se espraia em igapós e igarapés, forma lagos e furos. Almir segue uma carta náutica para não nos perdermos.

No primeiro dia, dormimos numa ilha no Paraná da Eva, antes de Itacoatiara. Evita-se navegar à noite, pois, além do trafégo intenso de barcos, troncos e galhos apodrecidos descem a correnteza, às vezes arrastando pedaços das margens. É o que torna o Amazonas barrento (água branca), diferente dos rios de água negra (na verdade, transparente). Água barrenta indica um leito em formação; a matéria orgânica a torna piscosa. A negra é própria de rios mais antigos e tem menos peixes (e nenhum mosquito).

Às 11 horas do domingo, entramos no Paraná do Ramos debaixo de muito sol. O rio estreita e o vento diminui. Nas margens sinuosas vão surgindo pequenas comunidades. Aqui e ali, uma casinha. Numa venda flutuante compramos pirarucu fresco e farinha de mandioca, e, pouco adiante, admiramos a dança dos botos no gigantesco “cruzamento” da Boca do Urariá.

Penso no poeta sonhando com essas cenas tropicais da sua infância no duro inverno da Alemanha, que o acolheu como exilado após o golpe militar chileno, em 1973. Thiago de Mello é filho de Barreirinha, morou em Manaus e no Rio de Janeiro, onde estudou Medicina antes de optar pelas Letras. Vivia pela segunda vez no Chile (na primeira, de 1960 a 1965, foi adido cultural e iniciou a amizade com Pablo Neruda, de quem é tradutor) e já era conhecido internacionalmente pelos poemas de Faz escuro mas Eu Canto, A canção do Amor Armado e Vento Geral, quando teve de se refugiar. Na volta ao Brasil, em 1977, quis morar no coração da floresta. Sua luta contra a injustiça, expressa nos Estatutos do Homem — uma declaração de amor aos direitos humanos, traduzida em trinta idiomas — o reconduzia ao caboclo do seu rio, que lhe dizia em versos: “Levo comigo uma fome/que, sem boca, me come.”

Aí vem ele, o homem que cruza conosco na canoa, voltando para casa no fim da tarde. É a hora alegre do banho, sob o crepúsculo de fogo e a sinfonia dos pássaros. Crianças e mulheres saem da mata e brincam na água. Ainda estamos longe do nosso destino e a noite cai, rápida. Mas o capitão decide que, neste rio com menos tráfego, podemos seguir navegando.

São duas horas de puro encantamento, tendo por único farol a lua, delineando o contorno das margens do rio. Quando pisamos em Barreirinha — barranco despontando no céu estrelado –, já estamos irremediavelmente cativos do feitiço desse lugar que Thiago de Mello escolheu para cantar.

Barreirinha

A casa de Lúcio Costa no Paraná do Ramos

Lúcio Costa nunca esteve em Barreirinha, mas seu nome é pronunciado com devoção por quem transita de bicicleta ou carroça pela Rua da Frente, uma via estreita e cimentada que margeia o Paraná do Ramos. Os vizinhos de sua única obra na Amazônia são gente simples, moradores da cidade de 20 mil habitantes, que sobrevive da pesca e da agricultura.

Embora poucos alcancem que ele é dos maiores urbanistas deste século, pioneiro da moderna arquitetura brasileira e autor de obras colossais, como o plano-piloto de Brasília, todos sabem que “na casa do Lúcio Costa” vive o Poeta, cujas portas estão sempre abertas para quem vem em busca de um xarope de ervas, um dedo de prosa, um conselho.

Cedo, o movimento já é grande. Vestido de branco, hábito que mantém desde jovem, Thiago de Mello, aos 72 anos, guarda também o de receber as visitas em redes, voltadas para a brisa do rio. Interrompido por ligações do sul do país e do exterior, pela manhã ele envia por fax crônicas para jornais, ajudado por Gracinha. A menina, de 16 anos, é uma das vozes do Jogral Companheiros da Esperança, que o poeta ensaia todos os dias com crianças da região, com um rico repertório de autores brasileiros.

Também estão sempre na casa os marceneiros Otílio e Francisco, executores do projeto que Thiago ganhou do amigo Lúcio, enquadrado na parede da sala. Orientados pelo poeta, eles criaram as vigas e esteios em itaúba e sucupira, madeiras nobres da floresta, além da maioria dos móveis. “Todo caboclo tem a vocação da madeira, maneja o enxó desde que nasce”, diz Thiago. Madeira é o elemento predominante na construção arejada, de 120 metros quadrados.

No térreo ficam a sala, o lavabo, a cozinha e o quarto de hóspedes. Em cima, a suite e o escritório, que permitem uma visão panorânica do Paraná do Ramos pelas aberturas sobre as portas da sala. “Acordo e vejo o meu rio”, diz o poeta, cuja rotina começa com o guaraná tomado em jejum e a leitura ao som de um concerto de clarinete de Mozart. Entre os telefonemas a amigos, incluem-se os que faz a Lúcio Costa, que, do Rio de Janeiro, aos 96 anos, gosta de ter notícias da floresta. “Ele sempre me agradece por ser feliz na casa que ele criou. Que alma nobre é o Lúcio!”

Outro prazer de Thiago é cozinhar pratos da região, como o pirarucu, preparado e servido no alpendre. O tucano Flor da Mata e o veadinho Clemente brincam no jardim idealizado por Aparecida, sua esposa. Foi quem desenhou também os armários da cozinha, feitos por Francisco, com louças e garrafas expostas, “para resultar numa festa colorida”, segundo Thiago. Em viagem na época de nossa visita, Aparecida explica, por telefone, seus cuidados com o paisagismo. “Além da beleza, estou certa de ser imitada por outros moradores, o que fará bem à cidade.”

O poeta recebe na casa muitos hóspedes, incluindo os filhos de uniões anteriores, Manoel, Carlos Henrique, Isabella e Thiaguinho. Nela escreveu quatros livros, mas, quando precisa de reclusão para trabalhar, foge para outro refúgio: a casa do Andirá.

 

Andirá

Onde o poeta se esconde para criar

Dependendo da época do ano, a viagem de Barreirinha à Freguesia do Andirá pode ser curta ou longa. Quando os rios estão cheios, de maio a outubro, um furo liga o Paraná do Ramos ao Igarapé do Pucu, que se abre na Boca do Andirá, o que permite ir de porta a porta numa voadeira com motor de popa em 15 minutos. Caso contrário, a descida pelo Paraná do Ramos, como fizemos, leva cerca de três horas, numa paisagem magnífica.

A construção fica na Ponta da Gaivota, que na seca possui praias de areia branca banhadas por águas transparentes, quase azuis. Da rede, a vista do poeta alcança o pedaço de terra conhecido por Ponta da Safadeza, do outro lado do rio. Na cheia, o Andirá sobe até a porta da casa, erguida sobre palafitas.

“O que me encanta neste lugar é o vento, o sol, a água, o silêncio, e, à noite, o céu insuportavelmente estrelado”, explica Thiago, que, volta e meia, “conversa” com as quatro acapuranas que dão sombra à entrada, “tão unidinhas que, quem vê de longe, pensa que é uma só”. As árvores centenárias produzem favas que alimentam os peixes quando o Andirá está alto.

Batizado com o nome do tucano de estimação — Flor da Mata –, o refúgio é uma adaptação simplificada do projeto de Barreirinha, concebida pelo poeta com a orientação do amigo Lúcio Costa. Mantidas as mesmas medidas — um retângulo de 10 por 8 metros –, além do telhado em duas águas e da estrutura com esteios e vigas de madeiras nativas, a divisão interna foi mudada. São dois dormitórios, banheiro, cozinha e uma sala-varanda num único piso.

A obra teve início em 1989, mas só em 1995, com a compra de um gerador de energia movido a diesel — a região não possui luz elétrica –, a casa pôde ser plenamente habitada. Também nesta, os mestres marceneiros Otílio e Francisco se encarregaram do madeirame e dos móveis em itaúba, pau d’arco e maçaranduba. A decoração inclui potes de artesãos locais, lembranças de viagens, posters e quadros de amigos.

À direita da casa principal há outra, para hóspedes, com três quartos. À esquerda fica o escritório onde Thiago passa a maior parte do dia. Ali ele mantém a biblioteca com obras queridas e material de consulta, CDs, televisão e vídeo. É onde escreveu De uma vez por todas, seu último livro, e onde traduz atualmente duzentos poemas inéditos de Pablo Neruda.

Quando se cansa, fica cismando na rede — a melhor “terapia”. Ou sai para ver o pôr-do-sol no Lago Itapecuru com os amigos, caboclos do rio, que “conhecem os segredos do vento, conversam com as estrelas da noite e vivem em permanente estado de solidariedade, embora não saibam soletrar a palavra Utopia.”

 

Liberdade e Amazônia, em verso e prosa

Liberdade, justiça, direitos humanos e Amazônia são personagens centrais na obra de Thiago de Mello, autor de poesia e prosa, além de traduções (de Pablo Neruda, Ernesto Cardenal e Cesar Vallejo, entre outros autores latino-americanos).

Na poesia, destacam-se: Vento Geral (obras de 1951-1981), Faz escuro mas Eu Canto (inclui Estatutos do Homem), A Canção do Amor Armado, Poesia comprometida com a Minha e a Tua vida, Mormaço na Floresta e De uma vez por todas.

Em prosa, Manaus, amor e memória, Amazonas, Pátria da Água, O Povo Sabe o que Diz e Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo.
Os livros foram publicados pela Civilização Brasileira e Bertrand Brasil.

Fale Comigo

Entre em contato ou agende uma palestra