Agruras e delícias de uma reforma

Publicado em: Revista Claudia, Dezembro/1993 - Por Isabel Vieira


Tudo bem, a culpa foi minha. Eu podia ter me apaixonado pelo apartamento novo do prédio ao lado, mas se você é daquele tipo que, como eu, não resiste à tentação de uma reforma, vai me entender. Os americanos, com sua obsessão pelo descartável, não sabem o que estão perdendo. (Nunca entendi a razão da ótima qualidade das embalagens one way, que eles inventaram, só para ir ao lixo). Como explicar o prazer que sentimos ao fazer rejuvenecer velhos objetos — do sofá da sala à cúpula do abajur, surpreendente depois de revestida com a seda chinesa bordada, arrematada num brechó? Ou a cômoda da avó, charmosíssima após uma mão de tinta cor-de-vinho? Ou os vestidos indianos que repousaram duas décadas no baú, antes que as garotas de hoje achassem o máximo ressuscitá-los?

Esse prazer deve ter algo a ver com anseios escondidos dentro da gente, sei lá. Revisitar emoções passadas, resgatar sentimentos em desuso, adaptar antigas percepções a novas situações. Não dá para jogar fora o que se foi ou sentiu — o que dá é para arrumar as gavetas, selecionar seu conteúdo, descartar o que não serve e buscar uma nova ordem para o que permaneceu.

Pois bem, o outro apartamento, bem mais barato, ficaria perfeito… apenas trocando-se os armários (que estavam sendo devorados por cupins), encanamentos, azulejos e pisos, e acrescentando-lhe dois pequenos luxos: uma banheira de hidromassagem e o velho sonho de ter um escritório em casa, só para mim. Isso, é claro, implicava derrubar uma ou duas paredes para ampliar o segundo dormitório e torná-lo apto a acomodar as meninas, liberando o terceiro para o escritório. Coisinhas simples.

Erro fatal: subestimar o tamanho da obra, do preço e dos prazos. Tenho uma amiga que, por conta de modificações quase tão simplesinhas como as minhas, está há dois anos atolada numa reforma, sem data para terminar. Mais um pouquinho, e empata com a construção da Torre Eiffel, em Paris, aquele colosso de 300 metros de altura e 9 mil toneladas de peso, que levou exatos dois anos, dois meses e nove dias para ser erguida — e olhe que com tecnologia do final do século passado!

Arquitetos

Culpo, em parte, os arquitetos por esse equívoco; tal como os cirurgiões plásticos, nos contam apenas meias verdades sobre a extensão da operação que estamos prestes a empreender. Para uns e outros, tudo será muito simples, rápido e indolor, com um resultado final fantástico. Quem não arriscaria?

Fora isso, não tenho nada contra os arquitetos. A Nina, pelo menos, é uma criaturinha adorável. Supercriativa, desembarcou um dia de um jipe vermelho (ela mora num sítio) empunhando seu cartucho de projetos e, diante dos meus olhos maravilhados, foi despejando idéias fabulosas. Um closet materializado a partir de um canto morto do corredor. Uma porta original para o meu escritório, com metade falsa, escondendo um roupeiro. Um deslocamento mínimo de paredes e eis que as meninas ganham uma bela suíte. Gostei do seu ar desalentado de mãe que corre o dia inteiro, e deixa criança na escola, e visita não sei quantas obras, e não tem tempo nem para consertar os óculos, colados com durex. Fechamos negócio na hora.

Uma semana mais tarde, meu pobre apartamento lembrava Beirute em pleno bombardeio. Dez homens, manejando picaretas com uma fúria incontrolável, quiçá terapêutica, arrasavam o que quer que houvesse em seu caminho, e, enquanto montanhas de entulho iam enchendo a sala, liqüidando as belas tábuas de ipê, meu telefone começou a tocar freneticamente. A vizinha do 92, uma senhora de idade, com enxaqueca crônica, implorava pelo fim dos estrondos. O vizinho de baixo acordara com água pingando na cabeça, por conta de um cano arrancado com a violência de quem extirpa um câncer. A mãe do bebê do 84 me responsabilizava pela crise de bronquite da criança, causada pela poeira. A Eletropaulo ia multar o condomínio em vários salários mínimos: seu Felício, o eletricista com cara de bom velhinho, que já tinha me aplicado o golpe do “dinheiro extra para comprar material” (entenda-se: cachaça no bar da esquina), deixara fios descobertos na caixa de entrada de luz do prédio e sumira por uma semana.

Ah, quanta coisa se aprende numa reforma! Sabia que, quando se altera a posição das peças de um banheiro, há que se fazer novos furos na laje (óbvio, os ralos mudam de lugar!), o que exige a aprovação de dois terços dos condôminos, já que a laje é um bem comum do edifício? Meu gentil vizinho de baixo veio exibir, vitorioso, a legislação — e nem o síndico, um engenheiro, lhe garantindo que minha hidromassagem absolutamente não afetaria a estrutura do prédio, conseguiu demovê-lo da idéia de me obrigar a colher 45 assinaturas antes de permitir que furassem meu piso. Que, bem lembrado, era também o teto dele.

Mais tarde dei a mão à palmatória: o vizinho de baixo estava coberto de razão. Eu mataria quem abrisse dois rombos no teto do meu banheiro, inutilizando-o para uso, e sumisse. Foi exatamente o que fez o encanador. Seu José, o empreiteiro, sem conseguir explicar o desaparecimento do homem nem a compra de material superfaturado que vinha fazendo, acabou escorraçado pela pobre Nina, que, assustada, antes que eu sacasse uma arma, embarcou-o no seu jipe e saiu cantando os pneus.

Novo empreiteiro

Bob, o novo empreiteiro, prometia tranqüilidade. Com a autoconfiança e a pinta de um Schwarzenegger, chegou afirmando que sua palavra valia por um contrato e pediu o triplo do preço para terminar o serviço. Desesperada, concordei. Nessa altura, eu já intuía que os dois meses previstos para a obra esticariam para cinco e que o orçamento estouraria em 80%, como de fato aconteceu. Mas fazer o quê?

Devo admitir que, até certo ponto, Bob não me enganou. Rápido como um raio (enquanto eu lhe devia dinheiro), trabalhou duro. Difícil foi fazê-lo voltar, depois de receber, para terminar detalhes que dependiam de Joca, o marceneiro, que, depois de se mostrar desesperado por não poder instalar os armários (encomendados e pagos havia quatro meses) enquanto os pedreiros não saíssem, só foi começar a fazê-los… depois que os pedreiros saíram! Também é certo que Bob consertou vários estragos cometidos por seu antecessor, mas quanto aos que ele próprio causou (como instalar minha lavadora de pratos em 220 volts, em vez de 110, quase queimando-a), aí a coisa já não é tão simples.

Como trabalhei simultaneamente com uma arquiteta, um empreiteiro e um marceneiro autônomos — se pudesse voltar atrás, pegaria uma única equipe –, até hoje Bob culpa Nina e Joca, que culpa Bob e Nina, que por sua vez responsabiliza Bob e Joca por cada uma das minhas queixas. Ontem mesmo ela me ligou e, depois de se certificar de que nenhum ataque de fúria viria mais do outro lado da linha, revelou que descobrira o culpado pelo problema da lavadora de pratos — que, além da voltagem errada, fora perigosamente encostada no fogão: a loja onde comprei os armários de cozinha, que teria errado nas medidas.

Gracinha de pessoa.

Feliz no meu escritório novo, escrevendo este texto, não quero mais caçar culpados. Culpada fui eu, que não me apaixonei pelo apartamento novo do prédio ao lado — e acabei gastando neste praticamente o mesmo valor.

Fale Comigo

Entre em contato ou agende uma palestra