Depois do dia infernal

Publicado em: Jornal da Tarde, Fevereiro/1983 - Por Isabel Vieira


Uma cidade lenta, barrenta, molhada, assustada. Tentando, a duras penas, se recuperar. Assim parecia São Paulo vista do alto, ao meio-dia de ontem, depois das quinze insuportáveis horas de chuva que viveu na terça-feira, quando – literalmente – a cidade parou.

Apesar de São Paulo já ter, nessa hora, todas as suas entradas e saídas desimpedidas – os acessos às rodovias Anhanguera, Bandeirantes, Castelo Branco, Dutra e Fernão Dias não apresentavam nenhum problema –, os paulistanos seguiam devagarinho pelos quilômetros iniciais dessas estradas, pelas marginais do Pinheiros e do Tietê, traumatizados pelo susto da véspera, como se ainda fossem encontrar pela frente os mesmos alagamentos, barreiras e poças d’água. Talvez por isso, pelo medo de não saber o que os esperava adiante, os motoristas que seguiam pela marginal do Tietê em direção à via Dutra saíam da pista interna e procuravam a lateral, no trecho entre as pontes da Freguesia do Ó e do Limão, causando congestionamentos desnecessários: a pista interna permanecia livre, sem obstáculos que justificassem o desvio.

Alagada mesmo, sem condições de trânsito, só continuava a pista central no sentido inverso, Penha-Lapa, sob a Ponte das Bandeiras. Ali, emergiam da água mais veículos do que se poderia supor nas horas tumultuadas da terça-feira, quando o Tietê, saindo do leito, cobriu muitos deles.

O tom da cidade vista de helicóptero sob a garoa fina, depois da tragédia, era barro. O tom do barro envolvia os rios e córregos, as ruas, as casas, dominava o que deveria ser verde – campos de futebol alagados na Penha, as surpreendentes hortas do Jardim Japão e do Parque Novo Mundo submersas em imensas poças – e se estendia, interminável, ao longo da avenida do Estado, junto ao Tamanduateí novamente retornado ao seu leito, muito perto dos estragos que ele causou.

Na rua Almirante Lobo, na Vila Carioca, onde as águas invadiram as casas até 2 metros e 10 centímetros de altura, a lama deixou um rastro que vai ser difícil de apagar. Das cenas dramáticas que a rua viveu na terça-feira, com bombeiros retirando das casas cerca de uma centena de crianças, sobrou uma paisagem desolada, marron, carros parados, atolados, quase ninguém na rua.

Só lama na favela da Vila Prudente, só lama nas ruas da Barra Funda, com algumas delas ainda parcialmente cobertas pelas águas. Na avenida Rudge as pessoas caminhavam com água pelos joelhos, muitas lutando para fazer funcionar o motor dos carros parados, abandonados na véspera. Outros vão demorar bem mais tempo para sair: estão presos numa garagem ali perto, na água barrenta, num terreno quase que todo alagado.

E a ilha que surge em seguida é o Clube Esportivo da Penha, que fica entre a rua Capitão João Cesário e a avenida Aricanduva, esta última ainda coberta pelas águas. Ou o que restou dele. O que se vê do alto é apenas uma casa ilhada – a sede social do clube. As quadras de futebol, áreas de lazer e piqueniques, playground, casa de máquinas e almoxarifado, tudo estava sob as águas.

Apesar de lento na cidade inteira, o trânsito só parava de uma vez em alguns trechos da marginal – imediações da ponte do Limão, ponte das Bandeiras e ponte Cruzeiro do Sul –, na avenida Tiradentes e na avenida do Estado, onde os guardas de trânsito faziam o possível para acelerar a marcha dos carros e caminhões patinando sobre a lama. E cobertos por ela.

Mas as cenas mais dramáticas estavam por vir: na vila Leopoldina, bairro operário repleto de fábricas e depósitos junto à marginal do Pinheiros, muito perto do Cebolão e da entrada da rodovia Castelo Branco, onde o tráfego corria normalmente, a água ainda se mantinha com cerca de um metro de altura. Da ponte Miguel Mofarrej muita gente assistia aos esforços desesperados de um barquinho onde era carregada ora gente, ora comida, ora uma motocicleta, indo e vindo da parte mais seca (leia-se enlameada) da rua Mergentaler até os sobradinhos completamente ilhados na rua Roberto Zuccolo, paralela. Felizes com a melhoria da situação – na terça-feira, afinal, as águas chegaram a 2 metros naquele trecho da cidade –, ou talvez com o providencial barquinho que veio ajudá-los, os moradores de Vila Leopoldina acenavam alegres para o helicóptero, gesticulando e sorrindo.

Com esperança – parecia. Afinal, a São Paulo cor de lama mais uma vez sobreviveu.

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