"Ditadura, nunca mais!"

Publicado em: Entrevista c/ Vargas Llosa - Revista Claudia / Janeiro de 2001 - Por Isabel Vieira


O escritor, que discute o autoritarismo no livro A Festa do Bode, trabalha em um novo romance sobre a feminista Flora Tristán e comenta a derrocada do ditador Alberto Fujimori, que um dia o venceu nas eleições do Peru

Decididamente, a indiferença não está entre os sentimentos que Mario Vargas Llosa provoca, seja por seus livros, seja por suas idéias políticas. Pode-se amá-lo ou discordar dele, mas mesmo quem pertence ao segundo time reconhece nesse peruano nascido em Arequipa, há quase 65 anos, a autoria de uma obra literária de peso e a estatura de um estadista. Um dos principais escritores da atualidade, ele é apontado como candidato ao Prêmio Nobel por três dezenas de títulos, traduzidos em trinta idiomas. Entre eles, Tia Júlia e o Escrevinhador e os romances históricos – gênero que domina com maestria — Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo e A Festa do Bode, sobre o ex-ditador da República Dominicana Rafael Trujillo.

Vargas Llosa adora política. Em 1990, candidatou-se à presidência do Peru. Favorito nas pesquisas, perdeu para Alberto Fujimori. A derrota nas eleições rendeu ao escritor as memórias O peixe na água e uma límpida certeza: “Política profissional, nunca mais”. Em 1992, Fujimori fechou o Congresso. À custa de fraudes, se reelegeu duas vezes, permanecendo no poder até o escândalo que culminou com sua fuga para o Japão e a destituição do cargo por incapacidade moral em novembro passado. Com a queda do ditador, Vargas Llosa reitera a fé nas liberdades democráticas, que chegaram ao Peru pela pressão do povo.

O escritor vive em Londres com Patrícia, sua mulher, com quem está casado há 35 anos. Os filhos trilham seus passos: Álvaro, 34 anos, escritor e jornalista, militou na resistência a Fujimori; Gonzalo, 32, trabalha com refugiados nas Nações Unidas; e Morgana, 26, é fotógrafa na Espanha.

Depois de uma troca de e-mails tumultuada por um vírus que quase liqüidou o computador da entrevistadora, Vargas Llosa falou a CLAUDIA por telefone com a simpatia e o bom humor que o caracterizam.

CLAUDIA – O senhor soube que recebi um vírus nas mensagens que me mandou sua secretária, Lucía?

VARGAS LLOSA – Em meu computador há um vírus?! Não sabia! Que horror!

CLAUDIA – Um vírus terrível, que quase inutilizou o micro.

VARGAS LLOSA – Que barbaridade! Vou dizer a Lucía, ela não deve saber! (Grita para ela: Lucía, há um vírus no computador!). Sinto muitíssimo! Foi involuntário, hein? Não tive a intenção de infestar o Brasil com vírus!

CLAUDIA – Claro, a culpa é dos hackers… Como o senhor se relaciona com o computador?

VARGAS LLOSA – A primeira versão dos meus livros, faço sempre à mão. Foi como aprendi a escrever e seguirei assim até o fim. Uso o micro para as versões seguintes e para a definitiva. Ele é útil para corrigir, refazer, cortar, coisas que faço muito.

CLAUDIA – E com a Internet?

VARGAS LLOSA – É uma revolução. Impulsionou as comunicações a um extremo que nem os mestres da ficção científica podiam imaginar. Nesse sentido é positiva. Mas, a mim, ela serve apenas de maneira prática. Não pertenço ao time de enlouquecidos que já não vivem senão pela e para a Internet.

CLAUDIA – O e-book vai substituir o livro?

VARGAS LLOSA – Essa é a grande pergunta, não? Muitos céticos dizem que os livros vão desaparecer e dar lugar ao livro eletrônico. Eu não sei. Minha esperança é que, se isso ocorrer, reste uma minoria quase clandestina que manterá o culto do livro de papel, esse no qual comecei a ler e que é inseparável da literatura. Para comunicar-se, informar-se, o uso da tela parece maravilhoso. Mas eu não poderia desfrutar de um poema lendo-o na tela, como num livro. Acredito que o livro eletrônico já está às portas da civilização e terá efeitos importantes no âmbito da cultura.

CLAUDIA – Quando o senhor era menino e morava em Cochabamba, descobriu que poderia “viver outras vidas” lendo histórias de aventuras. Isso não ocorre mais com os jovens? O que mudou?

VARGAS LLOSA – Muita coisa mudou, mas há pouco houve um fenômeno alentador, que mostrou ao mundo que, para as crianças de hoje, os livros podem ser tão estimulantes e interessantes quanto eram para nós.

CLAUDIA – Harry Potter (de J.K. Rolling)…

VARGAS LLOSA – Exatamente. Em vários países, as aventuras de Harry Potter tiveram êxito extraordinário entre as crianças. No lançamento do quarto volume em Londres, elas ficaram horas nas livrarias. Como no século passado, na França, quando saiu a segunda parte de Os Miseráveis, de Victor Hugo. O mesmo ocorreu na Inglaterra com os romances do escritor Charles Dickens. E não foi um fenômeno elaborado por editoras, uma operação publicitária. Foi a paixão pela história que tocou em algum nervo dos pequenos.

 CLAUDIA – O senhor se definiu como um dinossauro num artigo…

VARGAS LLOSA (rindo) – Bem, foi uma metáfora. Eu me referia a esse sentimento de que os livros estão ficando obsoletos, arcaicos. A tela está tomando o lugar da cultura livresca, e eu dizia: bom, se é assim, sou e morrerei um dinossauro. Para mim a cultura é inseparável da palavra escrita.

CLAUDIA – Por que o senhor diz que a literatura é uma mentira, mas que ela expressa a verdade melhor que um noticiário de tevê?

VARGAS LLOSA – A imagem é fugaz e superficial. Converte-nos em espectadores passivos, e o mundo se torna um grande teatro, onde se revelam desde intimidades picantes de celebridades até esqueletos de crianças em Ruanda. A informação audiovisual nos faz ver a história como ficção, por distanciá-la das causas e contextos. Embora bem informados, ficamos desconectados da realidade.

 

CLAUDIA – E com os livros, o que acontece?

VARGAS LLOSA — A literatura nos traz o que não aparece nas manifestações como a história, a sociologia, as descrições objetivas da realidade. Ela é aquilo que não temos e que queremos ter, e que, como não temos, inventamos. Os livros, essas fantasias e mentiras, expressam verdades profundas, que são as dos nossos desejos, ambições, sonhos, frustrações, nosso anseio por um mundo diferente.

 

CLAUDIA – Pode-se dizer que esse anseio por mudanças foi responsável pela destituição do ex-presidente Fujimori?

VARGAS LLOSA – Claro que sim, o repúdio ao regime cresceu a partir da fraude eleitoral (em maio de 2000) e da descoberta dos níveis vertiginosos de corrupção, jamais vistos no país, até culminar com a fuga do ex-presidente por temer a ação policial. Depois do nosso espanto e horror diante de roubos astronômicos num país tão pobre, abriu-se a esperança no futuro. A maioria dos peruanos recebeu com alegria o fim da ditadura.

 

CLAUDIA – Qual o sentimento que predomina, hoje, no Peru?

VARGAS LLOSA – O de esperança, sem dúvida. Esperança de recuperar e reconstruir o país a partir do zero. A equipe de transição que nos conduzirá até as próximas eleições, em abril, tem o apoio popular e deve contribuir para uma tomada de consciência: ditadura, nunca mais.

 

CLAUDIA – O senhor fez críticas a Fernando Henrique Cardoso que, na assembléia da Organização dos Estados Americanos, se manifestou contra a imposição de sanções ao Peru diante da fraude que permitiu a terceira eleição de Fujimori. Ele o considerou injusto e precipitado.

VARGAS LLOSA – Não creio que as minhas críticas tenham sido injustas. Quando o presidente Cardoso foi eleito, eu disse que era um luxo para o Brasil ter no comando um autêntico democrata, que sofreu na carne a experiência da ditadura. Me afetou enormemente um político desse nível ter aquela atitude. Talvez haja razões de Estado para isso que eu, como cidadão que crê na democracia, não entendo. É inaceitável um governo democrático ser cúmplice de uma ditadura. Se as democracias latino-americanas tivessem atuado com energia no Peru, quem sabe teriam abreviado o sofrimento do povo e antecipado a queda do regime que causou imensos estragos ao pais com fraudes, assassinatos, destruição das instituições, censura à imprensa, cerceamento do Judiciário e corrupção.

 

CLAUDIA – FHC considerou suas críticas emocionais.

VARGAS LLOSA – Ao contrário, foram bem racionais. Correspondem a crenças firmes de que a democracia é o caminho para o desenvolvimento, a modernidade e a justiça na América Latina. Tenho dito isso nos artigos que assino em vários jornais do mundo. A luta contra a ditadura era tão importante no Peru quanto foi no Brasil na época do governo militar – que o presidente Cardoso combatia com argumentos muito sólidos. Como eu fiz por meu país. Posso às vezes ser passional, afinal somos latino-americanos, não? (risos) Mas, nesse caso, não abandonei a razão.

 

CLAUDIA – O senhor se considera um cidadão peruano ou do mundo?

VARGAS LLOSA – Peruano, porque nasci no Peru e as questões que ocorrem lá me afetam. E também do mundo, pois moro na Inglaterra, passo temporadas na França, Espanha, Alemanha. Cidadão do mundo é o que mais gostaria de ser. Aspiro a que um dia desapareçam as fronteiras e todos sejamos cidadãos de todas as partes. Isso seria o máximo da civilização.

 

CLAUDIA – Seus livros misturam ficção com realidade. Urania, o personagem que conduz a narrativa de A Festa do Bode, existiu?

VARGAS LLOSA – Urania é imaginária, um personagem simbólico.

 

CLAUDIA – Vítima do machismo? Foi oferecida na adolescência a Trujillo…

VARGAS LLOSA – Sim. A mulher foi a maior vítima da ditadura de Trujillo. Ele a considerava um mero objeto. Usou o sexo como instrumento político para sujeitar, impor autoridade e vexar tanto os inimigos como os colaboradores.

 

CLAUDIA – A história se passa entre os anos 30 e 60. O machismo ainda é grande na América Latina?

VARGAS LLOSA – Sim, como em nenhuma outra parte. É uma tradição forte. Pode não haver discriminação legal contra a mulher, mas o machismo está arraigado no subconsciente latino-americano. É difícil para o homem aceitar a igualdade com a mulher no trabalho, no campo econômico, na distribuição das funções sociais. Há ainda uma larga batalha pela frente.

 

CLAUDIA – Há dez anos, o senhor queria escrever sobre a francesa Flora Tristán, avó do pintor Paul Gauguin. Desistiu da idéia?

VARGAS LLOSA – Estou trabalhando justamente nesse romance desde fevereiro do ano passado. Será meu próximo livro.

 

CLAUDIA – Quando sairá?

VARGAS LLOSA – Ainda não sei. O trabalho está num ponto que me diverte e fascina. Recolhi muito material sobre Flora e tenho um título provisório para o romance, O paraíso da outra esquina.

 

CLAUDIA – Por que Flora o encantou?

VARGAS LLOSA – Foi uma mulher interessantíssima, pioneira nas reivindicações femininas e teve uma vida extraordinária. Viveu muitas aventuras e dramas, na França, Inglaterra e no Peru, onde foi reclamar uma herança, pois era filha de um general peruano. Uma pessoa cheia de inquietações, lutadora de incrível caráter, com coragem para enfrentar preconceitos, hostilidades, adversidades. Socialista utópica, viveu todos os movimentos políticos da primeira metade do século XIX, e assim poderei mostrá-los por meio dela.

 

CLAUDIA – Qual a fronteira entre ficção e realidade na sua obra?

VARGAS LLOSA – Meus livros são ficções, mas têm raízes em experiências vividas, na história. Todos estão comprometidos com problemas da atualidade.

 

CLAUDIA – O senhor tem preferência por algum?

VARGAS LLOSA – É tão difícil dizer! Se tivesse de escolher, ficaria com os que deram mais trabalho, como Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo e A Festa do Bode. Mas cada livro foi uma aventura muito particular. Me sinto solidário com todos.

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