Flora Tristán- A visionária que inspirou Vargas Llosa

Publicado em: Revista Claudia / Julho de 2003 - Por Isabel Vieira


Avó do pintor francês Paul Gauguin, ela é personagem do novo romance de Vargas Llosa, O Paraíso na Outra Esquina. Filha bastarda, vítima de uma tentativa de assassinato pelo marido, Flora teve uma vida atribulada e fascinou o escritor porque brilhava com luz própria. Denunciou a condição da mulher do seu tempo e militou pela causa operária, defendendo idéias que continuam atuais

Ouvi falar pela primeira vez em Flora Tristán 17 anos atrás. Numa entrevista a Ricardo Setti, na revista Playboy, o escritor peruano Mario Vargas Llosa — de quem sou leitora apaixonada — disse que um de seus projetos mais ambiciosos era escrever um romance sobre a vida dessa grande lutadora social, a primeira mulher a quem se podia chamar de feminista, que havia injustamente passado à história apenas como avó do pintor Paul Gauguin. Só agora, quase duas décadas depois, Vargas Llosa concretizou o sonho no livro O Paraíso na Outra Esquina, publicado no Brasil pela editora Arx.

Quem foi a mulher que cativou o escritor? Por que aquela figura miúda, de cabelos negros e olhos escuros — a Andaluza, como a apelidavam — ficaria conhecida na Europa do século 19 como Madame-la-Colère, a senhora enraivecida? Por explosões como esta: “Não é cristão que, em nome da santidade da família, um homem compre uma mulher, transforme-a em botadora de filhos, em animal de carga, e ainda encha-a de pancadas quando bebe além da conta!”

Assim Flora explicava a platéias escandalizadas por que o cristianismo, na sua opinião, não era incompatível com a defesa do divórcio, que ela fazia viajando pela França em busca de apoio para criar uma União Operária. Acreditava que os trabalhadores só se livrariam da miséria se conseguissem se unir em organizações de classe, mas que essa luta era inseparável da luta pela emancipação feminina. “Da educação da mulher depende a educação do homem, particularmente o homem do povo”, afirmava. “Reclamo direitos para a mulher porque todas as desgraças do mundo procedem do esquecimento e desprezo com que ela tem sido tratada”

A militância de Flora se confunde com sua vida. Sem as circunstâncias novelescas que a cercaram, é pouco provável que a menina bem-nascida, que viveu os primeiros anos numa mansão em Vaugiraud, nos arredores de Paris, cercada de mimos, conforto e criadas, tivesse se tornado uma pária, como ela chamava a si própria — pária porque excluída, “marcada com o selo da ilegitimidade”. Flora nasceu em 1803, filha de um aristocrata peruano e uma plebéia francesa. Se o coronel dom Mariano Tristán y Moscoso não a tivesse deixado órfã aos quatros anos de idade, que caminhos ela teria tomado?

Filha Bastarda

A morte súbita do pai marca o início do seu calvário. Como os pais não haviam se casado no civil, só no religioso, a união é considerada ilegítima e Flora filha bastarda. Perde todos os direitos, inclusive a casa. Mãe e filha sobrevivem em condições precárias e cedo Flora se torna operária. Em 1820, trabalha numa oficina de litografia, cujo dono, André Chazal, apaixona-se por ela. Pressionada pela miséria, a mãe a força a aceitar o casamento com esse homem violento, de quem Flora teria dois filhos e uma filha. A menina, Aline, viria a ser mãe de Paul Gauguin, nascido quatro anos após a morte da avó.

Dá pra imaginar uma jovem casada de 23 anos, na França de 1826, em sua terceira gravidez, sem fortuna e sem profissão, que abandona o lar e foge com os filhos (Aline na barriga) para viver por conta própria? Foi o que Flora fez. Chazal nunca a perdoaria e a perseguiria sem trégua, obrigando-a a mudar de um lugar para outro. Ela deixa as crianças com uma ama no campo e trabalha como criada de uma família inglesa, com quem vai à Inglaterra, Suíça e Itália. O filho mais velho morre e o marido consegue a guarda do outro. Flora fica apenas com Aline, adota o sobrenome do pai e se faz passar por viúva.

“Vivi nessa época tudo que uma mulher está condenada a sofrer quando se separa do marido numa sociedade preconceituosa. Durante seis meses, escondida sob nome falso, vaguei com minha pobre filhinha. A dor e a fadiga esgotaram minhas forças. Fiquei gravemente doente”, contaria mais tarde. Não por acaso, o primeiro panfleto que Flora publicou foi Necessidade de Dar uma Boa Acolhida às Mulheres Estrangeiras, em 1835. Nele estão os germes das ideias sobre a emancipação feminina e a organização dos trabalhadores, que ela desenvolveria em suas obras posteriores: Méphis ou A Proletária (1838), Passeios em Londres (1839) e União Operária (1843).

Em Necessidade de Dar uma Boa Acolhida…, Flora apela “às mulheres que não conhecem por experiência própria a desgraça dessa posição” e “aos homens que, apesar dos esforços, não poderão compreender quão duro é ser mulher sozinha, e estrangeira”. Estrangeira, para ela, tem um sentido amplo: excluída, livre, sem o amparo das normas sociais. Incluem-se nessa categoria tanto as mulheres que viajam para instruir-se ou a negócios como aquelas que fogem de desgraças, como as prostitutas. O discurso do panfleto rompe com valores da sociedade patriarcal ao denunciar a mulher como vítima dos costumes e atribuir-lhe o papel de sujeito da História.

Viagem ao Peru

A operária havia amadurecido intelectualmente ao se tornar viajante: Flora só começou a escrever depois de viajar para o Peru, em 1833, em busca do reconhecimento da família paterna. Outra vez a vida lhe aprontava lances de novela: três anos antes, hospedada com Aline numa pensão em Paris, ela havia conhecido o capitão Chabrié, homem bom e educado que se surpreendeu ao ouvir o sobrenome Tristán: por acaso ela seria parente de dom Pio Tristán, da aristocracia peruana? Esse era justamente seu tio, irmão de seu pai, que havia procurado em vão durante anos! Por intermédio de Chabrié, Flora começou a se corresponder com ele. Decidida a reclamar sua parte na herança, deixou Aline com amigos e, fazendo-se passar por solteira, no dia em que completou 30 anos embarcou no Mexicain para uma aventura de quase dois anos.

Nunca poderia imaginar que o comandante do navio fosse o próprio Chabrié! Como manter a mentira se ele sabia que ela tinha uma filha? Como falar a verdade se a condição de mulher separada a transformava numa pária que seria rejeitada pelo tio? “Sempre que me encontrei em posições embaraçosas, pedi conselhos ao meu coração”, conta Flora em Peregrinações de uma Pária, em que relata a viagem. Mesmo sem conhecer bem Chabrié, pediu-lhe segredo sobre a menina. Preferiu confessar-se mãe solteira a revelar seu casamento. O que não esperava era que Chabrié se apaixonasse por ela durante a longa travessia, a ponto de passar por cima das convenções e propor que se casassem e fossem viver no Chile, Peru, Estados Unidos, China… qualquer lugar!

Peregrinações de uma Pária, publicado em Paris em 1838 (edição em português da Editora Mulheres, de Florianópolis), é um livro encantador, que mescla peripécias da viagem ao testemunho de uma européia sobre a América Latina no século 19. Flora se revela uma observadora atenta dos hábitos dos lugares que visita, como Cabo Verde, onde se horroriza com a escravidão negra, e o porto chileno de Valparaíso, em que senhoras bem-vestidas caminhavam em ruas de lama. Para chegar a Arequipa, cidade onde vivia seu tio (a mesma onde nasceu Vargas Llosa), faz uma estafante jornada em lombo de mula.

A visão dos três vulcões de Arequipa ao longe, no deserto, faz a viajante esquecer a fadiga. Mas o objetivo da viagem não se concretizou. Embora recebida com cortesia, Flora não foi reconhecida como herdeira pelo tio e obteve apenas a promessa de uma pequena pensão anual. As conversas com a prima Carmen, em compensação, fortaleceram seus propósitos feministas. “Aqui as mulheres são tão infelizes quanto na França. Também encontram a opressão no casamento, e a inteligência que Deus lhes deu permanece inerte e estéril.”

Luta feminista

E o amor do capitão Chabrié? Mesmo sofrendo, Flora preferiu rejeitá-lo e magoá-lo a revelar que era casada. Não voltaria a se envolver com homens. É possível que tenha vivido uma paixão homossexual por Olympia Chodzko; as cartas que trocaram sugerem mais que uma amizade. O fato é que, de volta à Europa, dedicou-se de corpo e alma à luta social e feminista. Influenciada por pensadores como Saint-Simon, defendia o socialismo utópico e a fraternidade universal cristã. Um de seus sonhos era a construção de Palácios dos Pobres, prédios onde os operários teriam assistência médica, educação para os filhos e amparo na velhice.

Em 1837, Flora solicitou à Câmara dos Deputados o estabelecimento do divórcio na legislação francesa. Em 1838, o fim da pena de morte. Nesse ano, André Chazal, que nunca deixou de persegui-la, tentou matá-la e recebeu a pena de 20 anos de trabalhos forçados. O episódio repercutiu em Paris e trouxe publicidade a seus livros. “A grande novidade é o atentado contra Flora Tristán por seu marido; isto a fez mais célebre em uma hora que em dez anos de vida literária”, escreveu o crítico francês Sainte-Beuve a amigos.

Seus últimos anos, Flora passa percorrendo a França com exemplares de União Operária debaixo do braço, em reuniões em fábricas, conversas com patrões e autoridades para convencê-los a construir um mundo mais justo. É nesse instante, fisicamente alquebrada, que Vargas Llosa a flagra nos capítulos iniciais de O Paraíso na Outra Esquina. O título recorda uma brincadeira infantil. Uma criança pergunta: “Onde é o paraíso?” As outras correm e dizem: “Na outra esquina”.

Utopias são assim: sonhos sem os quais não podemos viver, mas que nunca alcançamos. Flora Tristán, a mulher que pregava utopias, morreu aos 41 anos, em 14 de novembro de 1844, de febre tifóide, levando a seu funeral uma multidão de intelectuais e operários que tentavam chegar à outra esquina.

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