Livros, um amor para sempre

Publicado em: Revista Claudia / Outubro de 1994 - Por Isabel Vieira


Ensinar nossos filhos a amar os livros é um grande presente que podemos lhes dar. Livros ampliam os horizontes, divertem, são ótima companhia e preparam para viver

Tudo parece conspirar para que o fascínio que nos produzia uma bela lombada de couro, as letras gravadas antecipando o prazer contido nas páginas – páginas mágicas, que fariam nossa imaginação lançar-se em arrebatados vôos – não se repita com nossos filhos. Fomos crianças e jovens num tempo em que o mundo girava mais devagar, quando a previsão de Mc Luhan, de que a televisão o transformaria numa aldeia, soava como retórica longínqua. Nossos filhos nasceram e estão sendo criados nessa época de informação em mosaico, simultânea e descontínua, que o comunicador americano previa. São da era da imagem e da eletrônica; descobrem o mundo e a si mesmos com a ajuda de aparelhos sofisticados, e nem conseguem imaginar um tempo em que a tevê, o vídeo, o videogame, o micro e os CD-ROMs não ocupassem o lugar antes reservado às estantes de livros, na parede mais nobre da sala de visitas.

Ainda que essa realidade tenha que ser respeitada, estou convencida de que nossas crianças podem e devem ser ensinadas a amar os livros. Há boas razões para isso, mas a principal é que certamente se tornarão adultos mais ricos e felizes. Livros ampliam os horizontes, abrem novas perspectivas, ajudam a entender o que se passa dentro de nós e nos preparam para lidar com os grandes e os pequenos problemas da vida. Além de ensinar, divertem e fazem companhia. Por mais dores e ciladas que o percurso nesta terra nos reserve, quem ama os livros jamais se sentirá sozinho.

Não estou só nessa minha convicção. Em 1990, pouco antes de morrer, nos Estados Unidos, o psicanalista e educador austríaco Bruno Bettelheim – especialista em psicologia infantil, autor de Psicanálise dos Contos de Fada e Uma vida para seu filho –, revelou, num dos ensaios que compõem A Viena de Freud (Ed. Campus), que sua vida foi o resultado dos livros que leu: mais que influenciar, alguns chegaram a determinar sua carreira profissional e muitos dos seus caminhos.

Para Bettelheim, que dizia se identificar com as crianças porque “odiava a escola”, os livros tiveram diferentes papéis ao longo de 86 anos bem vividos. Menino, fugia da dura realidade da Primeira Guerra lendo romances históricos ou de ficção científica, para refugiar-se no passado ou no futuro. “Essa literatura escapista permitia-me esquecer como a vida se tornara difícil para mim, de modo que logo aprendi o grande alívio que os livros são capazes de oferecer”, observou. Jovem, mudou de tática: em vez de autores que o fizessem esquecer, buscou aqueles que o ajudassem a entender os horrores do mundo que o cercava e lhe dessem subsídios para tentar mudá-lo. “Mais que qualquer perseguição anti-semita, foi a leitura de Martin Buber que me tornou ciente de ser judeu”, conta Bettelheim, que em 1938 foi capturado pelos nazistas e passou um ano em campos de concentração.

Outros livros o levaram a dedicar-se à educação e à psicanálise. Idoso, concluiu que seu trabalho mais conhecido, Psicanálise dos Contos de Fada, teve origem na impressão profunda que lhe causou a voz da mãe ao contar-lhe essas histórias. “Pais que desejem aprofundar sua relação com os filhos poderão fazê-lo lendo para eles”, escreve, explicando que o significado que certas obras literárias adquire para nós depende, e muito, de “como e através de quem elas nos chegam”. Textos lidos em voz alta ou discutidos com pessoas queridas serão sempre os mais importantes. “Alguns dos livros que mais me marcaram foram lidos e apreciados com amigos íntimos, com os quais eu discutia demoradamente”, lembra.

Formando leitores

O Colégio Friburgo, de São Paulo, vem comprovando a relação entre leitura e afeto. Em um programa para incentivar o hábito de ler entre seus alunos, propõe que cada criança leia dez livros por ano, sem vinculação a nota, por simples prazer. Em cada classe formam-se pequenas bibliotecas, onde livros trazidos pelos alunos somam-se aos do acervo da escola. Um dia na semana é reservado à troca de idéias e discussão dos títulos. Os resultados surpreendem. “A maioria ultrapassa dez livros; há quem chegue a ler trinta ou quarenta”, conta Iracy Rossi, vice-diretora pedagógica, que credita o resultado à propaganda boca a boca entre os alunos. “Todos querem ler o que o colega está lendo para poder comentar”.

“Se falamos sobre cinema e vídeo no jantar, por que não incluir os livros na conversa?”, sugere a coordenadora da biblioteca do Friburgo, Sueli Rodrigues. Sueli estimula os pais a contar histórias para os filhos pequenos, lê-las em voz alta para os maiores e, em qualquer idade, ler sempre os mesmos livros que eles, para explorá-los juntos. O amor pelos livros exige cultivo, é um amor conquistado. “O papel da escola e da família é facilitar esse contato”, diz Iracy Rossi.

Nem será preciso grande esforço. Quem crê que livros tenham perdido o atrativo para rivais eletrônicos podem se surpreender. No Friburgo, alunos de 3 anos já freqüentam a biblioteca e mostram-se encantados com o peso, a textura, o colorido das capas e páginas, que adoram manusear. Aos 5, 6 anos, disputam para levá-los para casa, como sócios da biblioteca circulante. Chegarão à adolescência aptos a ler de tudo, inclusive clássicos da literatura.
Nesse caso específico, trata-se de uma escola particular de classe média da capital paulista, mas, mesmo em contextos menos privilegiados, o interesse pela leitura é fácil de ser provocado: basta fazê-lo com amor.

Amor conquistado

Como escritora de livros juvenis, tenho visto cenas comoventes em encontros em bibliotecas e escolas públicas do interior de São Paulo, a maioria a convite do programa “O escritor na cidade”, promovido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo para aproximar autores de leitores. Minha experiência desmente o mito de que os adolescentes só suportariam (e por obrigação escolar) livros “com poucas páginas e letras grandes”. O nível das perguntas revela leitores atentos, maduros e interessados, capazes de analisar personagens complexos, aprofundar o conteúdo dos temas, questionar as técnicas usadas pelo escritor, observar particularidades do texto.

Claro: por trás de tudo há sempre uma figura amorosa, que os motivou. Wanda Mattos, professora em São Sebastião, SP. Pessoinha miúda, morena, alegre. Sua escola, na Enseada, fica em frente ao mar, de onde os pais dos alunos tiram o sustento como pescadores. Por conta própria, durante anos Wanda viajou 130 quilômetros de ônibus até Santos, voltando com pesadas sacolas de livros para as crianças. Está eufórica com a doação de exemplares que a escola há pouco recebeu do município: é a primeira vez que os tem em quantidade suficiente para os alunos poderem ler o mesmo título e discuti-lo. Seu amor à leitura fisgou os meninos. Difícil acreditar que tenham “devorado” em poucos dias um de meus livros (“grosso” e de “letra pequena”), indicado para faixa etária superior a deles. Mas a compreensão que mostram ter da história e o entusiasmo com minha visita não deixam margem a dúvidas: ler, para eles, é fácil e é um prazer.

Cecília Grana, incansável bibliotecária de Barra Bonita, às margens do rio Tietê, a 300 quilômetros da capital. Em seu posto na Biblioteca Municipal, uma bonita construção envidraçada abrindo para a praça, inventa mil maneiras de atrair a meninada para seus domínios. Sabe de cor que trabalhos escolares estão fazendo, de que livros precisam, quais gostariam de ler. Para os menores, inventou uma estante baixinha, de que os pequenos logo se julgaram donos. Quando a biblioteca mudou para o prédio atual, as crianças tiveram medo de que a transportadora não cuidasse bem dos seus livros e fizeram questão de elas mesmas carregarem aquela estante.

Luiz Cruz, de Franca, 600 quilômetros de São Paulo, bancário aposentado, escritor. Gosta tanto de livros que não se contenta em escrevê-los. Quer democratizar o prazer da leitura e da escrita. Monta grupos para ler e discutir obras literárias, criou um método para ensinar a escrever e uma oficina de produção de textos. Várias gerações de jovens passaram por ela. Talvez por isso haja tantos escritores na cidade: oficialmente, 82 – um para cada 7500 habitantes.

Enfim, esses são apenas alguns exemplos. Que podemos tentar trazer para dentro de casa. Se é verdade que “como e por meio de quem” os livros chegam às crianças determina a importância que terão em seu futuro, como ensinou Bettelheim, nossos filhos certamente se apaixonarão por eles se as histórias que ouvirem os fizer recordar o amor dos pais.

E não desanime se a paixão não se manifestar à primeira vista. De qualquer forma, você terá plantado uma semente, que um dia poderá germinar. “Não force seu filho a ler nada que ele não queira”, diz Iracy Rossi, do Colégio Friburgo. “Talvez aquele livro só vá interessá-lo mais tarde”. No caso de minha filha caçula, eu já havia me conformado com a idéia de ter semeado no deserto. Até que um dia, perto dos 16 anos, ela desligou a televisão e pegou da estante um clássico de Gabriel García Márquez. A notícia era tão surpreendente, que eu estava viajando e as mais velhas ligaram só para contar

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