Mario Vargas Llosa - As lições do mestre

Publicado em: Revista Claudia, Março/1995 - Por Isabel Vieira


O encontro de uma admiradora com o escritor peruano que influenciou sua formação

Estar ao lado dele por uns breves momentos, numa noite de verão excepcionalmente quente em Curitiba, perto do último Natal — Vargas Llosa era o convidado especial de uma apresentação do Coral do Palácio Avenida, naquela cidade, parte de seu roteiro pelo Brasil em dezembro passado –, me fez experimentar uma emoção parecida à que, há mais de três décadas, sentiu o escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura em 1982, ao avistar Ernest Hemingway caminhando pelas ruas de Paris, num dia chuvoso da primavera de 1957.

García Márquez era um jovem jornalista e um romancista principiante. Quando reconheceu, no gigante usando uma velha calça rancheira, camisa xadrez e boné de jogador de beisebol, o escritor americano cujos livros devorava com paixão, ficou um instante indeciso, dividido entre seus dois papéis: não sabia se atravessava a rua para pedir-lhe uma entrevista ou simplesmente para expressar-lhe sua admiração incondicional. Para não quebrar o encanto, não fez nem uma coisa nem outra. Apenas levou à boca as mãos em concha e gritou: “Maaaeeestro!” Hemingway, talvez se dando conta de que não poderia haver outro mestre entre a multidão do Boulevard Saint Michel, voltou-se e acenou-lhe: “Adióoos, amigo!” Foi a única vez em que estiveram fisicamente próximos um do outro.

Tive mais sorte que García Márquez. Do meu fugaz encontro com Vargas Llosa naquela noite de dezembro, para além das frágeis e insuficientes palavras com que tentei balbuciar-lhe meu apreço, ficou o testemunho de uma foto batida com uma câmera automática, que me devolve agora o olhar de devoção absoluta com que penso ter-lhe expressado meu encantamento.
A circunstância era inoportuna para uma entrevista. Además, o que lhe perguntar, que eu não adivinhasse a resposta? Quando se convive tão de perto e por tantos anos com a obra de um autor, ele se torna para nós mais íntimo que muitas pessoas com quem partilhamos a vida, e ainda assim — ou talvez por isso mesmo — tantas vezes desconhecemos. O escritor, ao contrário, ao expor seus anjos e demônios nas páginas impressas, cria com o leitor uma espécie de pacto de sangue, uma relação de devassamento, de familiaridade, de entrega, de alguma forma mais sólida e permanente que muitas de nossas relações pessoais.

Interlocutor antigo

Aquele homem que estava ao meu lado, menos alto e com mais cabelos brancos do que as fotos que vira dele faziam supor — Vargas Llosa completa 59 anos em 28 de março –, era, sem o saber, meu interlocutor mais remoto; ainda que eu fosse para ele uma desconhecida, tinha estado comigo inúmeras vezes, tomando café na mesa da minha cozinha. Mais que a miragem de tê-lo ao alcance dos olhos, creio que foi a revelação súbita e inquietante do mistério dessa unilateralidade que colocou em meu rosto aquela expressão extasiada e me manteve no mudo conforto anônimo do papel de fã.

Os que desconhecem essa minha paixão antiga sempre se surpreendem. Por que Vargas Llosa, perguntam, e não García Márquez, Borges, tantos outros grandes? Minha simpatia por ele não é excludente, leio todos os latino-americanos com enorme prazer; mas certas afinidades, algumas características suas e acasos muito particulares (foi o primeiro que li, por exemplo) fizeram com que se tornasse para mim mais importante e me ensinasse mais sobre literatura que qualquer outro — inclusive a apreciar os demais.

Talvez por ser um realista, com um pé fincado no jornalismo, e o real sempre ter me tocado mais que o fantástico. Ou por escrever romances tradicionais (com técnicas ousadas), com ação, personagens convincentes, começo, meio e fim, e por acreditar que esse gênero não morreu e nunca morrerá. (Anos atrás, vaticinava-se o fim do romance; no meu tempo de estudante, era moda achar o máximo aquelas teorias francesas de “dinamitar a linguagem para recriá-la”, que produziam livros sem história, chatíssimos.) Mas com certeza por ser ele mais generoso que qualquer outro escritor contemporâneo, revelando detalhadamente os passos e as dificuldades do seu processo de criação, segredo que a maioria esconde a sete chaves.

“Mentira” bem contada

Têm-se a impressão de que são todos uns iluminados, escrevendo sob inspiração divina. Vargas Llosa nunca contribuiu para levar adiante essa falsa mitologia. Em seus ensaios e entrevistas, aprendi uma lição (que ele, por sua vez, aprendeu com Flaubert, um de seus mestres; o outro é William Faulkner), sem a qual provavelmente jamais teria ousado aventurar-me pela ficção, já que nunca me senti abençoada com o “dom”: que o ofício do escritor está mais próximo da obstinação que da iluminação; que escrever exige método, suor, concentração e grande disciplina.

Se os livros nascem, como ele pensa, “do desacordo do homem com o mundo”, botá-los no papel é uma operação complexa, quase uma engenharia. Trata-se de “ordenar o caos”, no sentido de recriar artificialmente uma realidade paralela à da vida, onde existem infinitos planos e pontos de vista. A ficção, para Vargas Llosa, é uma mentira — mas uma mentira tão bem contada, que reordena o caos em que vivemos e nos propicia ver certas verdades que só por meio desse artifício podem ser compreendidas.

Mas tudo isso só fui saber mais tarde, não em 1973. É a data, vejo agora, de um artigo amarelado pelos anos, o mais antigo dos que guardo sobre ele, recortado de um jornal. Por que teria me chamado a atenção esse texto, se na época eu não conhecia seus livros? Quem sabe — havia uma foto — porque ele era bonito. (Ainda é, e não sou só eu que acho. Jorge Amado conta que, quando viajaram pelo sertão baiano, onde Vargas Llosa foi coletar dados para A Guerra do Fim do Mundo, livro inspirado na Guerra de Canudos, as mulheres ficavam doidas pelo “Argentino”, como supunham que fosse, por falar espanhol). Ou — o mais provável — porque o artigo discutia o papel do escritor, polêmica que nos tirava o sono naqueles anos. Era preciso ser “engajado”, “compromissado” com a causa dos explorados, como queria Sartre?

Quando, pouco depois, me caiu nas mãos Tia Júlia e o Escrevinhador, o primeiro dos livros de Vargas Llosa que li, seus amigos já não o chamavam mais de “Sartrecito”, apelido dos tempos da Universidade São Marcos, em Lima, por sua simpatia pelas idéias do filósofo francês. Saudavelmente concluíra que uma das coisas mais preciosas que possuímos é o senso de humor (que Sartre não tinha), e que certas histórias só podiam ser contadas de modo risonho. Tia Júlia fala de um escritor de radionovelas que confunde personagens das várias histórias que escreve, e do primeiro casamento de Vargas Llosa, aos 19 anos, com uma irmã de sua tia treze anos mais velha. Seu relato sobre os fatos reais que inspiraram o romance arrancou gargalhadas da platéia que foi ouvi-lo no Masp, em São Paulo, em dezembro passado.

Palestra no Masp

Simpático, arguto, cordial, ele fala tão bem quanto escreve, enfeitiçando os ouvintes com seu raciocínio cristalino e suas tiradas bem humoradas. Mesmo os que discordam de suas idéias políticas — muito à direita para o gosto de alguns marxistas, de cuja cartilha ele se afastou no fim da universidade –, reconhecem nele a elegância de um fino questionador, capaz de dobrar o adversário com a precisão de seus argumentos e com sua teimosia obstinada.

Contudo, esse talento de nada lhe valeu nas urnas. Em junho de 1990, Vargas Llosa perdeu as eleições para a presidência do Peru, depois de manter a liderança durante toda a campanha, chegando a 45% da preferência popular nas vésperas do primeiro turno. Alberto Fujimori, o vencedor, dez dias antes do pleito nem aparecia nas pesquisas.

Como seus leitores teriam feito, se pudessem, em vão os amigos mais chegados tentaram dissuadi-lo da aventura. Mas “se a presidência do Peru não fosse o ofício mais perigoso do mundo, talvez não me tivesse atraído”, ele brincou com um jornalista. A mulher, Patrícia (com quem está casado há trinta anos, mãe de seus três filhos, Álvaro, 28 anos, Gonzalo, 26 e Morgana, 20), também era contra, mas rendeu-se à evidência de que a política era outra das paixões do marido, desde criança.

Campanha política
A história da campanha, com o contraponto da infância e da juventude do escritor no Peru, até 1958, quando foi morar em Paris, está em O Peixe na Água, o livro de memórias que Vargas Llosa veio lançar no Brasil. Mais que uma análise dos fatores que levaram à derrota, o livro esconde, sob o olhar sensível do romancista, uma radiografia apaixonada da sociedade peruana, cujo perfil múltiplo e trágico — crises políticas, empobrecimento extremo, inflação, desemprego, ódios raciais e a violência do Sendero Luminoso, a organização maoísta que espalha o terror nos Andes — explica o fato de o candidato “blanquito”, educado, cosmopolita e democrata, que propunha reformas profundas, ter assustado tanto o eleitorado. O descrédito da classe política também foi decisivo. Perguntado sobre por que votava em Fujimori, um camponês respondeu: “Porque não sei nada dele”.

(Quinze meses depois da posse, Fujimori fecharia o congresso e restauraria a tradição da ditadura na América Latina. Da Europa, Vargas Llosa pediu sanções internacionais ao Peru — como disse que faria, caso eleito, com qualquer país golpista. Declarado indesejável em seu país, e ameaçado de perder a cidadania, ele e a família naturalizaram-se espanhóis).

Os peruanos não lhe confiaram o mandato, mas são obrigados a engolir o fato de que é graças ao candidato derrotado que seu país é hoje conhecido no mundo inteiro. Não há leitor de Vargas Llosa, em mais de trinta idiomas diferentes, que não se comova ao reconhecer no mapa nomes sonoros como Arequipa, terra natal do escritor, e de outros rincões remotos onde se movem seus personagens, perdidos na selva, na costa ou nos Andes: Junín, Huancayo, Cajamarca, Santa María de Nieva, Madre de Diós…

Cabo Lituma

Eu mesma sempre converso com o cabo Lituma* no bar da Chunga, na Piura dos areais candentes, e sofro quando é mandado para longe em missões difíceis — como a última, na região andina dominada pelo Sendero –, sacolejando por estradas empoeiradas ou lamacentas, o quepe enfiado na testa, os olhinhos perscrutadores, porque sei como é terrível, Lituma, compreendo, para um justiceiro à moda antiga, sentimental e romântico, entender as razões de tanta crueldade neste mundo cheio de violência.
Por opor-se ao pai, Vargas Llosa diz que deve a ele, homem tirânico que só foi conhecer aos 10 anos de idade, as duas coisas que mais preza em si mesmo: o amor à liberdade e à literatura. “Para que serve a literatura?”, enfurecia-se o senhor Vargas, quando o filho era menino, tentando impedi-lo de escrever.

“Os livros não aumentam a felicidade humana. Um homem que lê não é mais feliz do que o que não lê, ao contrário”, responde o escritor. “Ele se torna mais consciente das deficiências da realidade, e com isso mais rebelde e inconformado. Talvez seja a razão pela qual a ficção, em épocas conturbadas, tenha sido sempre tão censurada”.

Apagadas as luzes depois da aventura política, que custou a seus leitores cinco longos anos de silêncio, Vargas Llosa fecha O Peixe na Água com a repetição de uma mesma cena: o avião que o levou a Paris, três décadas antes, com o sonho de ser escritor, agora o conduz a Londres, onde vive, decidido a dedicar novamente toda sua energia a escrever.

Na minha interpretação, o peixe volta à água. Gracias, don Mario. É tudo o que nós, que amamos seus livros, torcíamos para acontecer.

* Lituma é um personagem recorrente, que aparece em vários contos e nos romances A Casa Verde, Quem matou Palomino Molero? e Lituma nos Andes.

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