Medo, uma rotina em Franco da Rocha

Publicado em: Jornal da Tarde, Janeiro/1983 - Por Isabel Vieira


Uma sirene que pode varar, estridente, a madrugada. Barulho de tiros, carros da polícia a correr pela avenida asfaltada de fundo de vale, indo e vindo, chegando e saindo. Depois, o silêncio. E, no dia seguinte, os comentários, o disse-que-disse, as perguntas, as versões. O medo.

É o Diabo Loiro, figura perigosa, que tentou pular o muro e foi apanhado, diz um. É o marido da Rosinha que levou uma estiletada e quase que se foi, jura outro. São os guardas de plantão que deveriam estar e não estavam, é a porta do manicômio que dorme aberta, são seus funcionários que ganham pouco – Cr$ 30 mil por mês – e se revoltam, e não trabalham direito, estão pouco ligando, dizem todos.

Depois, novamente, o silêncio. Não se toca mais no assunto, enterram-se os mortos – se existem –, trancam-se as portas por alguns dias e espera-se a próxima vez.

Esse ritual está tão integrado à vida dos moradores de Vila Ramos e Pouso Alegre, dois bairros de Franco da Rocha encostados no Manicômio Judiciário e no Hospital do Juqueri, que essas pessoas simples, que habitam as casinhas coloridas onde ainda há árvores, quintal e galinheiro, nem querem comentar a tentativa de fuga que ocorreu na noite de domingo, com um saldo de sete mortos (seis presos e um funcionário, este último morador do lugar).

– Estou tão acostumado com cenas assim que nem ligo mais. Desde que não seja com a família da gente… – repetem o senhor José da Silva, chapéu na cabeça, tomando sol na pracinha Nossa Senhora de Fátima, em Vila Ramos, onde vive há mais de 30 anos, e Carlos Eduardo Polandi, 18 anos, que trabalha num barzinho em frente.

Carlos Eduardo completa:
– Eu não me impressiono. Só a mulherada é que se assusta.

As mulheres assustam-se tanto que temem até revelar seus nomes, caso o jornal revele seus medos. Constrangida, envergonhada, uma senhora idosa explica:
– Claro que todo mundo tem medo. Quem não teria? Quando escurece fecho as janelas, não saio na rua de jeito nenhum. Meu marido e meu filho trabalham no manicômio, o velho está para se aposentar, passou a ganhar Cr$ 56 mil por mês. E eu sei por que tudo aquilo acontece, só que, se ficar falando por aqui, de repente despedem eles.

E ela fala da falta de pessoal – “Só havia quatro guardas de plantão na noite de domingo, e olha que são 700 presos perigosos!” –, dos baixíssimos salários – “Todos por volta de Cr$ 30 mil” – e das “mordomias em massa que umas assistentes sociais novas introduziram no presídio”.
– É futebol, é basquete, é televisão, é cafezinho e almoço, tudo a tempo e a hora, como é que pode? E os poucos que tomam conta dessa gente tão perigosa, e tão bem tratada, nem sequer ganham adicional de risco de vida. Este presídio é absolutamente abandonado pelas autoridades, mas não põe meu nome aí, meu marido já vai se aposentar, mas ainda tenho meu filho lá dentro. E ele só tem 25 anos.

Vinte e seis anos tem a moça loira, encostada na cerca do quintal cheio de bananeiras, usando bermuda, bobbies na cabeça, assustada:
– É, mulher se assusta mesmo, só a gente sabe o medo que passa com os parentes que trabalham no manicômio – diz.
Uma amiga da moça loira ficou viúva há pouco tempo, o marido morreu com uma estiletada. E ela própria, que trabalha no Hospital do Juqueri, já levou uma mordida de um louco qualquer, quase perdeu o dedo.

– Mas é o único emprego que tem por aqui – explica. – Quem não trabalha no manicômio ou no hospital tem que ir para São Paulo, enfrentar o trem todos os dias. Então vou ficando, nasci por aqui, tenho um bebê para criar… Mas só eu sei como funciona aquilo lá. É atendente de enfermagem, como eu, sendo obrigada a fazer serviço de enfermeira, é servente fazendo serviço de atendente, uma bagunça e tanto. Pouca gente e muito trabalho. E as maluquices dessas assistentes sociais novas que apareceram. Pois agora mesmo, no Natal, tiraram 80 presos e os levaram para a festa, na ala feminina do presídio, sem policiamento nem nada.

A moça loira tem muito medo da sirene que toca no meio da noite, sirena de alarme do Manicômio Judiciário, e mais medo ainda porque acha que nunca essa situação vai mudar:
– Os comentários são sempre debaixo do pano, nunca tem confirmação oficial. Depois, tudo fica esquecido.

– Que a tragédia de domingo sirva de alerta ao Secretário da Justiça, que insiste em construir uma nova Casa de Detenção no município – diz o prefeito de Franco da Rocha, Oscar de Almeida Nunes, na sua sala da prefeitura recém construída, temendo pela sorte dos que, como ele, nasceram na cidadezinha rodeada de muito verde, espalhada à volta da igrejinha e ao longo da linha de trem.
– Nossos 60 mil habitantes já vivem em permanente intranqüilidade, imagine então se houver mais promiscuidade juntando doentes mentais a marginais comuns. Já nem falo em tirar o manicômio daqui, mas no mínimo em dar tratamento e vigilância para quem está lá. A situação que eles vivem é o cúmulo, sem pessoal, sem cuidados, até com um diretor que vive em São Paulo. Só podia dar em fuga…

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