Memória de Búzios

Publicado em: Revista Versus 16, Novembro/1977 - Por Isabel Vieira


Quando o dia começa a clarear, seu Aristides toma um gole de café, abre a porta da venda e consulta o horizonte para saber se a estiva está “dando passagem”. Se o mar é calmo e o vento está a favor, os homens já estão deixando o pequeno porto improvisado sobre as pedras e lançando-se mar adentro, com suas canoas, para tentar “matar” algum peixe.

Seu Aristides olha com certa inveja os filhos, netos, genros e sobrinhos, mas não pode mais seguir com eles. Um reumatismo nas duas pernas – conseqüência dos cinqüenta anos de vida no mar, remando de joelhos, como todo canoeiro – o impede hoje até mesmo de “dar uma mãozinha” na difícil tarefa de desatracagem dos barcos.

Aos 69 anos de idade, pele curtida, sobrevivente com uma venda, onde comercia quase que exclusivamente na base da troca, seu Aristides Teixeira é o mais velho habitante da Ilha dos Búzios, montanha do oceano, a cinco milhas a leste da Ilha de São Sebastião (Ilhabela).

Quase nada se sabe sobre Búzios, exceto que a sorte das quarenta famílias que habitam a ilha jamais despertou grande interesse de estudiosos, governantes ou veículos de comunicação.

Não se tem notícias sobre a história ou os primeiros habitantes daqueles costões. Não existem levantamentos, nem antigos nem atuais, sobre a situação social, econômica, sanitária e cultural das 200 pessoas que sobrevivem naqueles 7 quilômetros quadrados de terras íngremes e muitas rochas.

E não fosse Euclides da Cunha ter visitado Búzios em 1902, e documentado o episódio numa reportagem, pouco se saberia sobre a existência da vida humana naquele lugar: em arquivos de jornais e bibliotecas públicas (inclusive no arquivo da Prefeitura Municipal de Ilhabela, a que pertence Búzios) não se encontra nenhum material sobre a ilha.

A única exceção é a obra de Emílio Willems (Biblioteca da USP), estrangeiro que andou pesquisando as comunidades da costa brasileira pelos idos de 1940. Editado em inglês (sem tradução para o português), seu livro Búzios Island retrata a ilha tal como o autor a conheceu em 1947. E comparando-se os seus dados com a vida atual dos buzianos, a constatação é apenas uma: nada mudou.

A ilha vive no mais completo abandono desde o início do seu povoamento, o que ocorreu presumivelmente há uns 300 anos.

Salvo um ou outro cientista que às vezes aparece por lá, pesquisando fauna e flora, a visita de estranhos ocorre raramente, e nunca se repete.

“Neste fim de mundo as pessoas nunca voltam”, constata sem amargura dona Margarida, habitante de Búzios. “Um dia chegou aqui um doutor de São Paulo, que prometeu mandar remédios. Não sei o nome dele, mas os remédios nunca chegaram.”

Acostumados ao isolamento e à ausência de notícias do resto do mundo, os buzianos não se queixam. Registram apenas na memória, como fato significativo, a lembrança de alguma pessoa importante que teria visitado a ilha, embora não saibam precisar datas nem nomes:

“Uma vez veio aqui um governador”, conta Aristides Teixeira, “e prometeu construir um trapiche de cimento e pedra para servir de porto”.

Mas como não se teve mais qualquer notícia do prometido nem de quem fez a promessa, os buzianos continuam utilizando o arriscado sistema nativo de atracagem nas pedras.

Impossível de ser realizado quando faz “tempo grande” (e nesse caso os buzianos permanecem sem qualquer contato com o mundo exterior), o êxito do desembarque depende do vento, da maré e sobretudo da agilidade dos homens. Numa sincronia perfeita com os movimentos do canoeiro, que controla a embarcação com o remo, quatro ou cinco pescadores, agachados sobre as pedras, seguram a canoa no momento exato em que ela é levantada pela onda. Ou a empurram, se a intenção é sair.

Um pequeno erro, uma distração de segundos pode ser fatal. E já aconteceu muitas vezes de buzianos salvarem barcos pesqueiros que, desconhecendo o local e aproximando-se demais do costão, quase se arrebentaram contra as pedras.

Economia

A pesca, o plantio de mandioca, o preparo da farinha e a manufatura de artesanato constituem as atividades básicas do habitante de Búzios e sua única fonte de subsistência.

Condicionado pelas contingências do meio físico, sem recursos tecnológicos para enfrentá-lo, o buziano acostumou-se a não contar com outro expediente que seus próprios braços para prover a vida material da família. Daí talvez a rigidez e determinação com que enfrenta os mares revoltos e a terra dura e difícil de cultivar: é unicamente da sua força física e habilidade para vencer o meio que dependerá a produção do excedente necessário à compra de gêneros e objetos no continente.

Assim, se a “rama” (mandioca) deu com fartura e a pesca foi boa, haverá dinheiro para complementar a alimentação da casa e trazer de Ilhabela os artigos que não existem na ilha: óleo, arroz, cebola, sal, café, leite, pão, querosene. Mas se a colheita foi fraca e a pescaria escassa, o jeito é se contentar com os frutos da terra. Ou passar fome.

O trabalho

A tradição e a necessidade geraram, em Búzios, uma divisão natural do trabalho: enquanto os homens vão ao mar, as mulheres cuidam da casa, da roça, dos filhos e da confecção de artesanato. Também a elas cabe o preparo da farinha de mandioca, famosa pela sua pureza e qualidade.

Os homens pescam às 6 da manhã; ao meio-dia “consertam” (limpam) o peixe, que vai servir de refeição à família. O excedente – quando existe – será salgado e armazenado para futura venda em Ilhabela, na ocasião propícia. Às 3 horas da tarde o mesmo ritual é repetido.

A presença de um barco pesqueiro nas proximidades é sempre bem recebida: significa que ele comprará o produto da pesca, evitando a onerosa viagem dos canoeiros aos centros consumidores. Se feita a remo, ela demoraria oito horas com vento contra e seis com vento a favor.

E mesmo para os poucos que possuem canoa a motor, o gasto com gasolina (300,00 cruzeiros para ida e volta) é um encargo muito pesado para justificar os minguados cruzeiros recebidos pela venda do peixe.

Essas dificuldades talvez expliquem a preferência de muitos buzianos pela lavoura, tarefa não menos dura. Montanhosa e íngreme, a ilha oferece poucas terras cultiváveis, e o plantio da mandioca e do feijão “guandu” é feito na encosta do morro, numa inclinação de 45 graus.

Mas o terreno escarpado não é empecilho para que as roças vinguem por toda parte: os habitantes de Búzios estão habituados a caminhar sobre pedras, por atalhos tortuosos. Seus pés sempre descalços fixam-se como garras nas sinuosidades do chão, e até as crianças pequenas caminham sem tombos sobre precipícios de atemorizar um paulistano.

O trato da terra traz satisfação aos buzianos, apesar de que nem sempre se consegue extrair dela mais que o necessário à subsistência. Planta-se para comer; o excedente é eventual.

De qualquer forma, seja a roça pequena ou grande – como a “fazenda” do seu Zé da Cruz, que possui quatro alqueires semeados, prometendo boa colheita para o próximo ano –, os homens e mulheres gostam do cheiro da terra e aguardam com prazer o crescimento dos seus frutos.

“É bom”, explica dona Clarice Costa, num laconismo próprio do isolamento. “A gente planta o pique da rama e ela cresce logo.” E esclarece: “O pique é um pauzinho que a gente corta do pé”. (Refere-se ao sistema de plantio da mandioca, em que as novas mudas são feitas cortando-se pedaços do galho de um pé já crescido).

Quando a colheita é boa, a farinha feita nas engenhocas rudimentares, que toda casa possui, é trocada por outros gêneros na venda do seu Aristides, ou nas outras duas que existem na ilha. Se é escassa, serve apenas ao consumo da família.

Dona Clarice explica: “Aqui não tem dinheiro, é gênero por gênero. A gente leva a farinha, o peixe, o chapéu, e troca por coisas de fora: sabão, óleo, querosene. Se o vendeiro não quer o chapéu, a gente volta com o chapéu e não leva o gênero. Às vezes também a gente compra fiado, para pagar com a farinha que ainda não está pronta”.

O artesanato

Famoso no litoral pela delicadeza do seu trançado, o artesanato de Búzios tampouco oferece compensações substanciais na sua comercialização.

Tradição ensinada desde cedo de mãe para filha, as mulheres buzianas vão buscar no “mato grosso” (nos morros mais altos) a matéria-prima para o seu trabalho. Cortando e trançando o bambu e a palha, ganham calosidades e cortes nos dedos: dinheiro quase nenhum.

Trabalhando durante um mês para confeccionar 30 cestinhas, a mulher de Severiano – considerado o melhor barqueiro de Búzios – vai conseguir por elas 300,00 cruzeiros, pagos por um comerciante em Ilhabela. A se descontar o preço da gasolina gasta no percurso, o lucro é nenhum. Por isso Severiano espera que a esposa tenha prontas no mínimo 100 peças, para receber mil cruzeiros e lucrar setecentos: resultado de três meses e meio de trabalho…

Seu Geraldo, mestre do pesqueiro Dona Helena, conta que já viu uma famosa loja de artesanato em Ilhabela comprar de um buziano um leque por 5,00 cruzeiros e revendê-lo por 100,00.

Alimentação e saúde

Há muito tempo que médico não pisa na ilha. E como nenhum levantamento existe sobre as condições de saúde e higiene dos buzianos, não se conhece com precisão qual a incidência de doenças sobre seus habitantes.

As observações de Willems, em 1947, mostravam um alto índice de mortalidade infantil, o que parece ser realidade ainda hoje: cada família acusa sempre a existência de três ou quatro filhos mortos. As precárias condições de higiene (não existem fossas nem banheiros em Búzios), a consangüinidade (os buzianos originam-se de duas ou três famílias e casam-se entre primos) e a ausência total de assistência médica parecem ser os responsáveis pelos males mais comuns: verminoses, infecções de todo tipo e vários casos de retardamento mental.

Apesar disso, o buziano tem aspecto saudável. E mesmo o envelhecimento precoce – dos homens pelo trabalho braçal e das mulheres pelas múltiplas maternidades – não lhes nega uma forma física invejável: seu Zé da Cruz, com 64 anos, caminha dois quilômetros sobre as pedras carregando com facilidade um pesado fardo às costas.

Os bebês são alimentados ao peito, ou com mingau de farinha de mandioca e banana assada. Mais tarde o peixe, os ovos e as frutas da terra (banana, coco, jaca, mamão, manga, jambo, laranja) balancearão a dieta alimentar e darão cor rosada às faces das crianças.

As mulheres casam cedo, aos 13 ou 14 anos. Os partos são feitos em casa, com auxílio de uma curiosa. “Quando a gente se sente mal, chama a parteira e espera até Deus mandar”, conta dona Clarice, que teve onze filhos (seis vivos) nascidos em Búzios.

Mas hoje em dia já é comum as mulheres terem crianças em hospitais de São Sebastião. Isso quando há um barco disponível, mar calmo e vento a favor.

Mais grave que doenças ou a falta de remédios, sabiamente substituídos por chás de ervas, é a dificuldade de chegarem aos centros onde há médicos. Uma picada de cobra, uma fratura ou doença grave podem se transformar em tragédias se o doente não tiver barco próprio nem dinheiro para pagar os 400,00 cruzeiros que uma canoa a motor cobra pela travessia até Ilhabela.

“Nesse caso, é esperar a bondade de alguém ou morrer aqui”, diz Pedro Teixeira, que só conseguiu uma carona no pesqueiro Dona Helena oito dias depois de ter fraturado uma costela nas pedras do porto.

Migrações

Não têm luz, não têm médico, não têm água encanada, não têm fossas sépticas, não têm igreja, não têm comprador certo para seus poucos produtos, não têm oportunidade de nenhuma melhoria de vida: apesar disso os buzianos amam o pedaço de terra rochoso e árido onde nasceram e não conseguem viver em outro lugar. São muitos os que já tentaram vida fora, mas cedo ou tarde acabam sempre retornando.

Waldeliro Sebastião Pascedônio é um dos migrantes que foi e voltou. “Faz onze anos que a patroa morreu, criei cinco filhos sozinho”, diz ele, enquanto contempla o seu morro plantado de “rama”. Tem 44 anos, trabalhou em Ilhabela como pedreiro, mas hoje não sai mais “pra canto nenhum”. Só tem sossego em Búzios, cuidando da roça ou olhando o mar de cima de uma pedra, em frente da casa.

Seu Waldeliro tem um filho “embarcado”, o que é comum entre os buzianos: os rapazes geralmente deixam a ilha em barcos de pesca, onde trabalham como marinheiros. O grande sonho – que poucos realizam – é um dia serem donos do seu próprio pesqueiro.

Nem seu Zé da Cruz, homem importante entre os buzianos, conseguiu isso. Nascido e criado na ilha, ele é o único que tem documentos em ordem e recebe aposentadoria do INPS como pescador. Todo mês vai a Ilhabela retirar do banco os 2600,00 cruzeiros que lhe cabem pelos quarenta anos de vida no mar.

Seu Zé da Cruz é um homem feliz: há oito meses está morando novamente em Búzios, com mulher, filha e cinco netos, depois de perambular muito tempo por vários lugares do litoral. Cansou-se de andar sem rumo e agora construiu sua casa na Ponta das Pitangueiras, plantou mandioca e feijão e pretende contribuir para a economia buziana.

A mulher, dona Margarida, criada em Santos, não queria a mudança. Mas como “onde vai a corda vai a caçamba”, acabou concordando. E apesar de ter crises de tristeza e só conseguir distração com o radinho de pilha, não nega ajuda a quem a procura pedindo um conselho, um remédio ou um pedaço de linha para costurar.

Bem posto na vida, segundo os padrões da ilha, o casal exerce nítida liderança sobre os demais habitantes. E nas compras que seu Zé da Cruz faz em Ilhabela, todo mês, ele nunca esquece de incluir anzóis e mantimentos para os mais necessitados.

Dona Clarice Costa, irmã de seu Zé da Cruz, também já tentou viver fora de Búzios. “Meu filho casou, foi morar em Santos e arranjou casa pra nós naqueles lados. Num deu certo. Ele fez força pra tirar a gente daqui, mas nós num acostumou”.

Mas não é só o costume que prende o buziano à sua ilha. Mais que isso, é a impossibilidade de sobrevivência nos grandes centros – ou mesmo nas pequenas cidades costeiras – que traz de volta os que se aventuram a sair.

Sem qualquer preparo profissional para enfrentar a vida “lá dentro” (no continente), sentem-se marginalizados em locais onde seus conhecimentos do mar e do plantio não são suficientes para ganhar a vida.

Voltam porque em Búzios a miséria já é conhecida: não assusta. Lá não é necessário pagar aluguel, nem ter carteira de trabalho, nem ser vacinado, nem tomar condução, nem comer de marmita, nem morar em favela.

Voltam porque em Búzios a terra não tem dono: quem faz roçado adquire direitos legítimos sobre aquele chão, e não são precisas leis escritas para que isso seja respeitado.

E quem tem braço forte para enfrentar o remo e a enxada, coragem para andar pelos matos e pedras sem temer as cobras, e uma canoa para ir ao continente em caso de “precisão”, não necessita de mais nada. Pode viver tranqüilo. Como seu Zé da Cruz, que não se cansa de olhar o mar profundo batendo lá embaixo, nas pedras, e pensar em voz alta: “Tristeza pra quê?”

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