No limiar do sertão

Publicado em: Site Texto Vivo / Dezembro de 2006 - Por Isabel Vieira


Nada naquela manhã de domingo do final de agosto de 1937 fazia Dé Pedreira suspeitar da importância que a data viria a ter em sua vida, a ponto de, quase setenta anos mais tarde, ele ainda se recordar dela como a etapa inicial de uma jornada que iria percorrer durante os 26 anos seguintes.

Era um dia quente e sem nuvens, como tantos no interior da Bahia. O galo cantou no terreiro, junto da casa rústica. Dé Pedreira abriu a janela, olhou o céu azul, o pasto, o curral, a lavoura de feijão e milho, e gritou pelo menino Beto, que o auxiliava na lida.

Beto da Erundina – era costume ali identificar as pessoas pela filiação — atendeu prontamente. Tinha apenas 10 anos e parecia a sombra do patrão. Aonde quer que Dé fosse, lá estava ele junto. Só mesmo quando Dé ia trabalhar na roça, bem cedo, o garoto não o seguia, pois lhe cabia a tarefa de preparar o almoço para os dois.

— Cuidado para não queimar o feijão, Beto – Dé repetia todos os dias, como uma ladainha.

E o menino obedecia. O feijão estava cozido quando o patrão voltava para casa ao meio-dia, cansado e com fome.

Faziam juntos a refeição composta de arroz e feijão, às vezes carne de sol, e sempre muita farinha. Dé repousava um pouco e voltava à roça. À tardinha, eles alimentavam os animais e os recolhiam. Dormiam cedo, não havia luz elétrica. Acordavam com as galinhas.

Essa era a rotina na Fazenda Harmonia desde que Manoel Pedreira, administrador da Fazenda Canabrava, havia comprado do vizinho Zeca Sabak a fazendinha com 250 tarefas de terra — pouco mais de seis alqueires — e incumbido o filho mais velho, Waldemar, apelidado Dé, de cuidar dela. Três léguas – cerca de 18 quilômetros – separavam a Canabrava da Harmonia.

Exceto aos domingos.

Domingo era um dia diferente, alegre, especial para quem vivia nas lonjuras da Fazenda Harmonia, no lugarejo de nome Palmeiral, município de Mundo Novo, a noroeste do Estado da Bahia, na parte mais setentrional da Chapada Diamantina. Um pedaço do Brasil tão escondido que diversões como rádio, forró e cerveja, por exemplo – se é que já existiam –, não haviam chegado ainda.

Domingo era dia de feira… E dia de feira era quase dia de festa. Dia de fazer compras, encontrar os amigos, namorar…

Em vez de pelejar na roça, aos domingos Dé Pedreira e Beto da Erundina costumavam ir à feira no Engenho de Água Branca, um povoado que nem rua tinha, apenas uma pracinha e uma venda onde se ofereciam açúcar, café, sal, aguardente, carne de gado e uma bebida muito apreciada pelos rapazes, espécie de vinho branco doce, borbulhante como champanha, conhecido por Parati.

Naquele domingo do final de agosto de 1937, Dé Pedreira tomou café coado na cozinha de terra batida, cuidou dos animais, vestiu suas melhores roupas, encilhou as montarias e, na companhia do fiel escudeiro Beto, logo trotava pelos caminhos rumo ao Engenho de Água Branca. Não sabia que estava galopando de encontro a um chamado para viver uma grande aventura.

Jovem vaqueiro

Embora um pouco mais magro do que seria na fase adulta, aos 16 anos e quatro meses Dé Pedreira já tinha o porte e o pensamento de um homem feito. Talvez por ser o mais velho dos quatro irmãos, ou porque na época remota em que o bando de Lampião andava pelos sertões assombrando os vivos não se cogitasse de existir a adolescência, o fato é que os meninos se faziam homens sem passar por essa fase de irresponsabilidade e rebeldia.

A fotografia antiga mostra o jovem Dé Pedreira montado com altivez num cavalo branco, aparentando já ter a mesma estatura de 1,80 metro de hoje. Veste uma calça de brim cáqui, camisa xadrez de anarruga e jaleco de couro, mesmo material do chapéu, enterrado na cabeça, cobrindo parte da testa. O calçado, de couro curtido, é do tipo sapatilha usado pelos vaqueiros. Na expressão séria e decidida sobressaem o nariz longo, os lábios finos e os olhos claros, herdados tanto do avô materno, Totonho dos Santos, natural das redondezas, quanto do paterno, José Ilário Pedreira, nascido em 1840 no distante município de Santo Amaro da Purificação.

Pardo, de cabelos lisos e olhos azuis, José Ilário Pedreira tinha sido vaqueiro da Fazenda Engenho, onde conheceu e se casou com dona Calu, na mesma cidade de Capivari, atual Macajuba, em que seria enterrado e onde nasceria seu neto Dé Pedreira. Avô e neto não chegaram a se conhecer. Zezé Pedreira foi-se deste mundo em 1915, e seu neto Waldemar, o Dé, só chegaria nele a 24 de abril de 1921, primogênito de Manoel e Judith Pedreira, casados em 1920.

O sol estava forte. Dé Pedreira e Beto cavalgavam em silêncio, atravessando a paisagem que não oferecia novidades para eles. Dé tirou do bolso o maço de Olinda sem filtro, fabricado pela Souza Cruz, e acendeu um cigarro. Fumava desde os 15 anos. Não era sempre que achava sua marca preferida disponível nas vendas. O jeito era comprar qual encontrasse – se e quando encontrasse.

Quem reconhecesse Dé Pedreira na entrada do vilarejo sabia que ali estava um moço calmo, inimigo de brigas e confusões. Ele sentia especial prazer em encontrar o amigo João Borges, filho de Filogônio Borges, da Fazenda Riacho Fundo. João e seus irmãos Tote, Lolo, Dudu, Eraldo e Arlindo eram bons companheiros dos bailes no povoado do Covão ou ali mesmo, no Engenho, ao som das marchinhas e valsas tocadas no acordeão.

Já era meio-dia e o Engenho fervia de animação. Os Borges e outros rapazes se espalhavam pelos bancos da praça, protegidos do sol por um barracão. Era nesse local que eles tomavam umas biritas, contavam casos e “tiravam linha” com as filhas dos fazendeiros, que circulavam pela feira. Namoro se resumia a isto: a troca dissimulada de olhares, às vezes uma palavrinha, driblando a vigilância dos pais e irmãos das pretendentes.

Dé Pedreira apeou do cavalo e foi ao encontro dos amigos. Pedrinho Cunha se aproximou antes dos outros. Parecia contente.

— Olha, Dé. Tenho uma coisa para lhe dizer.

O caçula da família Cunha era filho do segundo casamento do fazendeiro Tibúrcio Cunha, velho amigo dos Pedreira. Fora Tibúrcio quem, 11 anos antes, numa manhã de 1926, havia alertado Manoel Pedreira sobre a passagem da Coluna Prestes pela região. Aquela era a lembrança mais remota que Dé Pedreira tinha de sua infância.

— Os revoltosos avisaram que vão tomar garapa e comer mel no meu engenho – tinha dito Tibúrcio. – Todos nós corremos perigo. O intendente da cidade mandou avisar que o melhor é fugir.

A carreira com que seus pais levaram os filhos para um grotão nos fundos da Canabrava nunca saiu da memória de Dé, que tinha 5 anos na ocasião. Ali estiveram oito dias escondidos, molhados pela chuva, picados por mosquitos, ouvindo as onças turrarem, tremendo de medo e frio, até saber que os esfarrapados comandados por Luís Carlos Prestes já haviam passado a 6 quilômetros de Mundo Novo e prosseguido sua marcha insana pelos sertões.

Mas, naquele domingo do final de agosto de 1937, a notícia que Pedrinho Cunha tinha para contar era bem mais interessante.

— Olha, Dé – repetiu ele, estendendo um copo de Parati ao amigo de infância. — Entre novembro e dezembro, meu irmão Argileu vem para cá, trazendo uma vacaria. Eu vou embora com ele, morar em Jequié e trabalhar na condução de boiadas. Quer ir comigo?

Decisão tomada

Ir embora para longe, ser tropeiro numa comitiva, conduzir os animais pelos sertões afora… Isso era tudo o que Dé Pedreira mais queria na vida naquele momento!

Não que ele tivesse a menor noção do tamanho do Brasil. Nem mesmo sabia que existiam outros países – ir até Minas Gerais, pensava, já seria uma ousadia tremenda! Mas o atraíam a vastidão das paisagens, a liberdade dos tropeiros, a possibilidade de aprender coisas que ninguém ali sabia. E ainda a de ser melhor remunerado que o parco salário de vaqueiro em Mundo Novo.

Na verdade, Dé Pedreira vinha alimentando o sonho de correr mundo numa tropa há vários meses, desde que conduzira a última boiada do Sr. Geminiano Bastos, dono da Fazenda Canabrava, à cidade de Feira de Santana. Mesmo que o percurso fosse de apenas oito dias, entregar tal responsabilidade nas mãos de um vaqueiro que mal completara 15 anos era a maior prova da confiança que o patrão de seu pai depositava nele.

E com toda razão. O Sr. Geminiano conhecia Dé Pedreira desde pequeno. Quando Manoel fora tomar conta de sua fazenda, levara a esposa Judith e o filho de seis meses. Lá haviam nascido e crescido as outras crianças do casal: Antonio, em 1922; Osvaldo, em 1924; e Laurita, em 1929. Geminiano vira com os próprios olhos a boa educação e os bons princípios que os pais haviam dado a eles. O sacrifício que fizeram para que aprendessem as primeiras letras: as professoras que contrataram, uma após a outra; depois, dona Helena, formada em Feira de Santana, que viera lecionar no Covão e em cuja casa os meninos ficaram morando para poder estudar.

Quando Dé completou 14 anos e Antônio, 13, ambos passaram a auxiliar o pai no campo. Gostavam de correr atrás dos bois, usando roupas de couro. Logo ganharam fama de ser bons vaqueiros. Então, o Sr. Geminiano havia encarregado Dé de levar boiadas para Feira de Santana. Na derradeira vez, o rapaz já aprendera o suficiente para saber que não haveria outras viagens tão cedo, pois todas as vacas gordas do fazendeiro já tinham sido postas à venda. Foi aí que Dé Pedreira começou a desejar partir para longe.

— Então seu Argileu vem entre novembro e dezembro – repetiu ele, incapaz de dizer outra coisa.

Pedrinho Cunha foi buscar mais bebida para eles.

— Pois sim, quer vir comigo ou não?

Dé Pedreira tinha consciência de que um convite daqueles não se repetiria duas vezes. Argileu Cunha era um homem de posses, respeitado em Jequié, a quarta cidade mais importante da Bahia na década de 1930. Destacando-se como entreposto comercial desde o século XIX, há pouco Jequié ganhara os trilhos da estrada de ferro, consolidando ainda mais sua vocação para o comércio. Além de possuir uma empresa de ônibus na cidade, a Transportes Brasil, seu Argileu comprava e vendia gado. Esses rebanhos eram entregues pelas comitivas, que movimentavam a economia do sertão.

Dé já havia até falado com os pais sobre esse sonho. Chegara a insistir, argumentando que sua partida seria boa para todos: os irmãos poderiam ganhar melhor na Canabrava, se houvesse um vaqueiro a menos. Mas, em vez de apoiar a idéia, Manoel e Judith tinham feito o oposto: como estratégia para manter o filho por perto, compraram a Fazenda Harmonia para ele tomar conta.

Tudo isso passou pela cabeça de Dé Pedreira enquanto ele ponderava sobre a decisão que estava prestes a tomar. Paulinho Cunha olhava para ele, esperando a resposta. Dé sustentou o olhar do amigo. Sua voz soou firme quando respondeu:

— Sim, eu quero. Vou com você.

Conversa difícil

E a coragem para comunicar sua decisão ao pai e à mãe?

Agosto chegou ao fim, veio setembro, setembro foi passando, e Dé Pedreira não tinha ânimo para falar com eles…

Obediência aos pais e amor à família eram valores tão sólidos na sua formação quanto o ímpeto que sentia de viver seu próprio destino, independente deles. Dividido entre a preocupação de não magoar os pais e o propósito de não trair sua vocação, Dé Pedreira continuou na rotina da roça, sem falar de seu drama com ninguém.

Até que um dia acordou determinado. Chamou Beto, encilhou o cavalo e, sem pensar duas vezes, tomou a direção da Fazenda Canabrava, seguido pelo menino. Debaixo do sol forte, percorreram os 18 quilômetros que separavam as propriedades.

A Canabrava era uma bela fazenda, com 4 mil tarefas de terra – cerca de 100 alqueires —, incluindo uma boa reserva florestal. A casa da família ficava no alto. Do avarandado ao redor se avistava o pasto e os campos cobertos de vegetação.

Chegaram perto do meio-dia. O pai ainda não havia voltado da roça. A mãe estava preparando o almoço. Com o vestido de manga curta e os cabelos compridos presos no alto da cabeça, como era costume, Judith recebeu o filho na cozinha, junto do fogão à lenha. Nas panelas de barro borbulhavam o feijão cozido e a galinha ensopada. O perfume do café recém-coado recendia no ambiente.

— Como vai o trabalho? Está gostando? – perguntou Judith, com uma névoa de apreensão nos olhos tão azuis quanto os dele.

Dé disse que sim e respirou fundo. Passaram à copa, onde faziam as refeições. Dé pegou uma caneca d’água na moringa que ficava num canto e sentou à mesa. A mãe fez o mesmo.

— Seu Argileu Cunha está chegando aqui entre novembro e dezembro – disse, medindo as palavras com cuidado.

— Está chegando? – repetiu Judith.

O filho confirmou com a cabeça. Ela silenciou, entendendo o que ele queria dizer.

— Veja, minha mãe, como minhas mãos estão cheias de calos de tanto pelejar na enxada – continuou Dé Pedreira.

Judith segurou as mãos estendidas entre as suas e as tocou devagarzinho, sentindo as asperezas.

— Sim, meu filho. Estou vendo.

Então Dé Pedreira falou tudo de uma vez, antes que perdesse a coragem e saísse dali correndo.

— Minha mãe, a senhora e meu pai lutaram para nos ensinar a ler, a escrever e a contar para levarmos uma vida melhor, não foi mesmo? Eu já sei ler, escrever e contar graças ao bom Deus e aos senhores. Sei que só desejam o bem de seus filhos. Então, mais uma vez, peço que me deixem viajar com Pedrinho Cunha para ir trabalhar com seu Argileu. Se não der certo, eu volto. Mas me dêem sua bênção; não me neguem essa oportunidade, por favor.

Judith abaixou a cabeça e começou a chorar. Manoel Pedreira chegou em casa para almoçar nesse momento.

— Manoel, Dé quer ir embora com seu Argileu – ela desabafou.

Um silêncio prolongado instalou-se entre os três. Depois de um tempo que pareceu eterno, o pai perguntou:

— E quem vai tomar conta da Harmonia, Dé? Você prometeu.

— Antônio pode fazer isso no meu lugar – ele respondeu.

— Mas nosso compromisso foi com você. E agora?

Dé Pedreira demorou a encontrar as palavras adequadas para alcançar o coração do pai. Até que as achou.

— Olha, meu pai – ponderou. — Como eu disse à minha mãe, sou grato a Deus, a ela e ao senhor por terem me dado o saber para eu poder conquistar uma vida digna. Vocês só querem o bem de seus filhos, não é? Peço que me deixem trabalhar com seu Argileu para que eu traga muitas alegrias ao senhor e à minha mãe.

Uma coisa que a vida havia ensinado a Manoel Pedreira era reconhecer quando alguém tinha razão. Ele olhou o filho mais velho com os olhos rasos de lágrimas e disse, com a voz embargada de emoção:

— Pois então vá, meu filho. Seja feliz! Deus te abençoe!

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