O arquivista do crime

Publicado em: Revista Ícaro Ponte Aérea, Janeiro/1985 - Por Isabel Vieira


Ladrões criativos, assassinos engenhosos, criminosos como só se faziam antigamente. São centenas de histórias de paixão e sangue que o advogado Milton Bednarski recolheu e documentou durante dez anos

O pai, um modesto encadernador de livros, já tinha um certo fascínio por histórias de grandes crimes. Não fosse assim, como explicar que aquele descendente de imigrantes poloneses, há anos estabelecido no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, gostasse tanto de levar o filho pequeno, de cinco anos apenas, a passear nas tardes de domingo pelos locais que foram palco das maiores tragédias da paulicéia antiga? “Aqui, na rua dos Gusmões, Meneguetti matou o delegado Waldemar Dória”, mostrava ele. “Ali naquela casa aconteceu o Crime do Restaurante Chinês, e ali adiante, na rua Conceição, 390, José Pistone matou Maria Féa: foi o Crime da Mala, filho, um dos piores da época”, explicava.

Hoje com 55 anos de idade, o advogado Milton Bednarski não precisa remexer muito na sua prodigiosa memória para atribuir a esses roteiros da infância a origem do precioso arquivo que vem construindo há mais de dez anos. (“Sempre tive gosto pela coisa”, lembra). Um arquivo do crime – o único de que se tem notícia no Brasil. Se organizado, o riquíssimo material que compilou daria uma enciclopédia de 17 volumes, com as histórias dos maiores crimes cometidos em São Paulo nos primeiros 70 anos deste século e também alguns dos mais famosos do Brasil e do mundo.

Mas Milton Bednarski ainda não teve tempo – nem uma oferta vantajosa de algum editor – para escrever esses livros. Há dois anos ganhando a vida como advogado criminalista (depois de se aposentar na polícia, onde trabalhou 35 anos como investigador e delegado), só mesmo aos domingos tem condição de dedicar-se às suas pesquisas, e por isso os cerca de 200 pôsters com fotos raras, milhares de negativos e clichês e perto de 300 volumes encadernados permanecem em duas salas de escritório numa galeria da rua José Paulino, empilhados, entulhados, mas perfeitamente organizados.

Bednarski sabe de cor onde encontrar cada pasta – para cada história há várias – no meio da aparente bagunça. De memória conhece também seu conteúdo, documentos, fotografias, recortes de jornais, cópias de processos, tudo em ordem cronológica, fruto de meticulosa pesquisa feita em arquivos da capital. E mais os depoimentos de familiares de envolvidos, gente que ele procura – às vezes por muitos anos – e acaba sempre encontrando.

“Sabe quem é este menino?”, pergunta, exibindo a foto amarelada que, amanhã mesmo, vai mandar reproduzir. Quem a trouxe, explica, foi uma velhinha de 94 anos, que perdeu o filho, à época com 15, simplesmente 46 anos atrás. O garoto que aparece sorridente, vestido de índio, num longínquo carnaval da década de 1930, foi uma das vítimas do Cinema Oberdan – inesquecível tragédia da velha São Paulo.

Matinê de domingo, 10 de abril de 1938. Um domingo de Ramos, com o filme Criminosos do Ar. O cinema estava lotado de crianças, e uma delas foi ao banheiro. Para encontrar a porta – tudo muito escuro – acendeu um fósforo e queimou um pedaço de papel, improvisando uma espécie de lanterna. Alguém viu a chama e gritou FOGO. O pânico tomou conta das 1300 pessoas, que tentaram escapar pelas duas portas (fechadas) do velho teatro Oberdan, uma de frente para a rua Firmino Witacher, outra para a Saião Lobato. Não houve incêndio, mas 32 meninos perderam a vida e centenas se feriram na catástrofe que Bednarski é capaz de reproduzir inteirinha, com uma riqueza de detalhes digna de um apurado historiador. “A velhinha que me deu a foto disse que, naquele dia, impediu o filho de ir às corridas de cavalos por considerá-las perigosas”, conta.

O Crime da Mala

Mas a história mais fascinante, aquela que mais investigou, foi a desta moça de olhos doces, cujo pôster ocupa lugar de honra bem em frente à sua escrivaninha. “É minha inspiradora”, diz Bednarski.

A moça é Maria Féa, tida como milagrosa pelos moradores de Santos, que construíram para ela um grande mausoléu. Foi morta em 10 de outubro de 1928, asfixiada pelo marido José Pistone, que alegou adultério da mulher para justificar as atrocidades que cometeu: comprou uma mala, quebrou os joelhos e as duas primeiras vértebras do cadáver para acomodá-lo dentro dela e tentou despachar a “encomenda” para o porto de Bordéus, na França, a bordo do vapor Massilia.

“Um guarda-mor do Porto de Santos desconfiou e fez a mala voltar”, conta o advogado. Aberta e confirmadas as suspeitas, Maria Féa ficou no necrotério aguardando a autópsia. Foi onde seu coveiro, Ramon Ximenes (que morreu de velhice ano passado, depois de localizado e ouvido por Bednarski), deu-se conta do primeiro milagre atribuído a ela. Entre as pernas do cadáver, apareceu um feto de sete meses, uma menina também morta. “Não pode haver dilatação sem vida. A rigidez cadavérica torna impossível um parto espontâneo depois de cinco dias da morte”, explica o advogado.

José Pistone foi condenado a 31 anos de prisão; cumpriu 16 e casou-se novamente. “Quem no Brasil tem esta foto?”, orgulha-se Bednarski, exibindo o pôster das segundas núpcias do réu, em 1949, com Francisca Amélia da Silva.

O advogado apaixonou-se tanto por essa história que não se limitou a reproduzi-la. Queria provar que Maria Féa não era adúltera – e acredita que conseguiu. Pesquisando, descobriu o suposto amante citado por Pistone no terceiro julgamento, nove anos após o crime (“Por que tanto tempo depois?”, desconfiou seu faro de investigador) e que nunca chegou a ser localizado nem ouvido. “Ele nunca foi amante da vítima”, garante o advogado. “Era um mero empregado de uma alfaiataria onde o réu tinha feito um terno. E só foi citado tanto tempo depois porque Pistone teve certeza de que Rocco de Uva – era esse o nome do moço – tinha mudado para Niterói, onde, naquela época, uma carta precatória jamais chegaria. Ele nunca seria ouvido, tal como previu o criminoso”. O encontro com um certo Teodósio, filho da segunda mulher de Pistone (o advogado localizou-o em Ubatuba, após 10 anos de buscas), só veio confirmar essa certeza. Contou-lhe o homem, de 70 anos, que seu padrasto Pistone morreu abraçado a uma foto de Maria Féa, descoberta pela família debaixo do seu travesseiro, nos longos meses em que permaneceu no hospital.

Crimes de antigamente

É de crimes desse tipo que Milton Bednarski gosta de saber; crimes em que entrem ingredientes como paixão, engenhosidade, criatividade, uma certa dose de romantismo. Crimes como não se cometem mais hoje em dia. Esses ladrões e assassinos que agora infestam o noticiário dos jornais, “sanguinários e sem-vergonha”, essas histórias de latrocínios e violência sexual, nada disso o interessa. Para esses delinqüentes ele acha que deveria haver uma forca em cada esquina. Quem são eles, afinal, se comparados ao inesquecível Gino Meneguetti, cuja inteligência, originalidade e vitalidade pôde comprovar com os próprios olhos, nas quatro vezes em que o prendeu?

Como comparar os assassinatos desta nossa década com a triste história, por exemplo, do senador Peixoto Gomide, que, em 1906, assassinou a filha Sofia (e em seguida se matou) uma semana antes do casamento dela com Batista Cepellos? “Ele não queria o casamento”, resume o advogado. Cepellos, homem brilhante, oficial da Força Pública, promotor e poeta, cuja única “mancha” foi ter nascido pobre, nunca se conformou: tornou-se um bêbado, um farrapo humano e seis anos depois jogou-se do alto da Pedreira Nova Cintra, no Rio de Janeiro.

As histórias de Bednarski precisam ter cenários bonitos e personagens requintados, intrigantes. Confeitarias da velha São Paulo, bailes onde Toledo Pizza dançava charleston com Nenê Ramalho e dedicava-lhe seus poemas mais ardentes, sem saber que, em 1923, iria matá-la – e suicidar-se – dentro de um fatídico táxi que seguia pela avenida Angélica, na esquina com a rua Sergipe. Por ciúmes. Mulher belíssima, que freqüentava as altas rodas palacianas, Nenê está enterrada no cemitério do Araçá. No da Consolação estão Moacir Toledo Pizza, jornalista, escritor, advogado e poeta afamado, e vários outros homens que ela amou. Como o Araçá fica num plano mais alto, no espigão da Paulista, Bednarski gosta de imaginar que até hoje “Nenê Ramalho olha com soberba para seus apaixonados, lá embaixo”.

Milton Bednarski recolheu, entre outras, as histórias de Eugène Dieudonné, o primeiro francês a fugir da Ilha do Diabo (e tem fotos até da pedra onde Dreyfus ficava sentado olhando o mar, louco para voltar à França); do italiano Alexandre Serenelli, depois convertido em monge, que, em 1902, matou Maria Goretti, cujo corpo nunca se desfez; de Paulo Ferreira de Camargo, que, numa casa sobre a qual mais tarde seria construído o Edifício Joelma (local marcado pela tragédia!), matou mãe e irmãs e atirou-as num poço. Descoberto, matou-se. A de Arias de Oliveira, autor, em 1938, do Crime do Restaurante Chinês, e até o assassinato de Frei Diogo, em 1549, em frente ao Convento da Luz – oficialmente, o primeiro crime cometido no Brasil. Seu assassino, um marinheiro espanhol, não foi preso por falta de presídio e de carcereiro. “Por aí você vê que as deficiências da nossa polícia vêm de longe, não são de hoje…”, diz o advogado, que lembra perfeitamente da época em que a Polícia Técnica trabalhava sobre bases empíricas e as autópsias eram feitas em cemitérios.

Conclusões de Bednarski: os métodos mudaram, a criminalidade evoluiu, mas “o homem continua sendo o mesmo animal selvagem de sempre, com aquele velho instinto homicida que fez, em outros tempos, Caim matar seu irmão Abel”.

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