O carteiro e o Cascudo

Publicado em: Site Texto Vivo, Abril/2007 - Por Isabel Vieira


O envelope, amarelado pelo tempo, é daqueles que têm as cores da bandeira do Brasil nas bordas e um retângulo à esquerda, embaixo, com os dizeres: Mala Aérea – PAR AVION. No carimbo dos Correios, a data: 10/07/73. O nome do destinatário, centralizado, está indicado em letras datilografadas.

 SR. ROBERTO SILVA
Av. José da Penha 188
Canguaretama – RN

De dentro sai um cartão também envelhecido. As palavras foram repetidas tantas e tantas vezes que nem seria preciso relê-las: ele já as decorou.

Roberto Silva
Sendo surdo, não uso de telefone, conseqüentemente, ignoro o número do meu! Está na lista. Muita alegria em vê-lo qualquer dia, na parte da tarde. E creia quanto me emocionou sua afetuosa carta. Deus o abençoe. Cordialmente,
Camara Cascudo

Já se passaram mais de trinta anos, mas é como se tivesse acontecido hoje. Os olhos do destinatário brilham quando ele exibe a carta que inicia a coleção de sua vasta correspondência, organizada em ordem cronológica num grosso álbum de capa preta – o primeiro de cinco, além de vinte caixas de camisa cheias.

“A emoção é a mesma”, garante este senhor falante e afável sentado à minha frente. Moreno, magro, 1,65 metro, 47 anos, rosto miúdo, os óculos grandes, ele combina o tipo físico nordestino com a finesse francesa. Apesar de jovial, tem um ar antigo, como se viesse de outros tempos.

Estamos na sala de seu apartamento, num dos sete blocos de um conjunto habitacional em Nova Parnamirim, RN, a 10 quilômetros de Natal. A região cresce rapidamente. Quando Roberto veio morar aqui, cinco anos atrás, os prediozinhos de quatro andares, sem elevador, eram rodeados por granjas. Havia verde, havia horizonte. Agora só há edifícios, queixa-se, e o calor aumenta…

A primeira carta. Ele pode até ver a cena. A tarde luminosa, o sol ardente. A bicicleta do carteiro surgindo, seu coração batendo… A alegria de receber resposta às mal traçadas linhas que havia endereçado ao escritor que admirava, expressando sua vontade de conhecê-lo. Uma ousadia para o menino de Canguaretama.

Aquela carta deu início a uma amizade singular, que lembra a relação entre o carteiro Mario Ruoppolo e o poeta Pablo Neruda, no filme O Carteiro e o Poeta, de 1994. Com duas diferenças básicas (e outras, como veremos adiante). Primeira: a história de Mario e Neruda é ficcional, inspirada no romance O Carteiro de Neruda, do chileno Antonio Skármeta; a de Roberto e Cascudo é verdadeira. Segunda: o filme se passa numa ilha italiana fictícia no Mediterrâneo, onde Neruda teria se exilado por motivos políticos. Nosso cenário é igualmente bonito, mas real e brasileiro: Natal, onde se conheceram.

Então, vejamos.

De um lado, o garoto de 14 anos fascinado por livros e cartas. De outro, um ilustre intelectual potiguar, na época com 75 anos: o Professor Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), tido como “uma enciclopédia ambulante”, ou, na visão bem-humorada do poeta Carlos Drummond de Andrade, “uma pessoa em forma de dicionário, dois grossos volumes que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, artes do nosso povo.”

Historiador, folclorista, etnógrafo, antropólogo, memorialista, pesquisador, jornalista, advogado e escritor, Cascudo publicou mais de 150 livros, traduziu e comentou outros tantos, despejou crônicas, ensaios e artigos em periódicos do mundo inteiro. Entre suas obras estão Lendas Brasileiras, Contos Tradicionais do Brasil, Antologia do Folclore Brasileiro, História dos Nossos Gestos, História da Alimentação no Brasil, Geografia dos Mitos Brasileiros, Superstição no Brasil, Rede de Dormir e uma centena de outras…

Contador de histórias 

Tudo começa em Pedro Velho, interior do Rio Grande do Norte, onde Roberto nasceu em 1959 — o oitavo de onze filhos e o segundo homem entre nove irmãs. Em 1968, na quarta série, ele lê num livro didático (“Meu coração, de Alaíde Lisboa de Oliveira”, conta) um conto de Cascudo (“O Afilhado do Diabo, que faz parte de Contos Tradicionais do Brasil”, completa). A história encantatória do garoto criado pelo padrinho, que descobre ser o padrinho o próprio diabo (e que se transforma em seres sobrenaturais para tentar, em vão, vencê-lo), traz a Roberto uma cena familiar. Ele já havia ouvido aquilo antes…

A sala enorme, a noite escura, os filhos deitados em redes, pedindo: “Papai, conte uma história!” Então o agricultor e pecuarista João Jerônimo da Silva, que nem sabia ler, tirava de seu vasto repertório de contador de histórias uma como aquela, que Cascudo recolheu, saída do imaginário popular, e emocionava as crianças.

Roberto aprendeu a ler aos quatro anos de idade – o ano de 1963 é o que ele considera realmente o de seu nascimento. “Não tenho lembranças anteriores”, garante. Teve aulas particulares com dona Geraldina Apolinário Rodrigues, mas a iniciação na leitura deve muito às revistas que as irmãs mais velhas compravam. A mãe dizia que ele copiava as letras com giz, na calçada de casa.

A infância pobre tinha luxos com que criança rica nem sonha. Como um certo “senhor que nos encantou.” Sapateiro e soldador de panelas e penicos, o homem aparecia às vezes na casa oferecendo seus préstimos. À noite, brindava a meninada com a contação de histórias em que atuava também como ator, reproduzindo vozes, ruídos, risos, choro. “Um dia, ele levou um saco de sapatos das meninas para consertar e nunca mais voltou.” Todos sofreram — não pelos calçados perdidos, mas pelas histórias que se foram…

Em Pedro Velho só havia o primário. Sentados na carroceria de um caminhão, sacolejando por 14 quilômetros de poeira ou lama, lá se iam os estudantes para as aulas do ginásio em Canguaretama, Roberto entre eles. O ano era 1971. Em julho o pai morre. Em 1972, mãe e filhos mudam para essa cidade.

É quando Roberto faz outras descobertas. Ainda no primário, em um livro de Rômulo Wanderley sobre a história e a geografia do Rio Grande do Norte, aprendera que Cascudo é potiguar. Em 1972, um colega que se mudara para Natal, José Francelino Júnior, traz nas férias algo precioso: uma edição do jornal A Província dedicada a Cascudo, recheada de informações. “Era da biblioteca escolar, tinha até o carimbo, precisei devolver. Penso que eu já falava muito em Cascudo, senão por que Jota me traria o jornal? Foi ali que vi o endereço do escritor e decidi lhe escrever. E ele me respondeu…”

Mas, embora apenas 80 quilômetros separem Canguaretama de Natal, o convite para visitar Cascudo demorará um ano para ser atendido. “Não se viajava com facilidade na época”, explica Roberto. Ele teria de esperar até 1974, quando vai à capital, para bater à porta do sobrado da Avenida Junqueira Aires, 377 (atual Avenida Luís da Câmara Cascudo, 377).

Conversa na varanda

Não é difícil localizar o casarão. Cascudo é conhecido em Natal. Havia lecionado na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte até se aposentar, em 1966. Havia fundado a Sociedade Brasileira de Folclore, responsável por intenso intercâmbio entre estudiosos do Brasil e do Exterior. Todos sabiam onde ficava sua casa. Todos sabiam que gente do mundo inteiro ia ali diariamente, à tarde, para prosear na varanda florida, ouvindo os pássaros que dona Dahlia Cascudo (1909-1996) “criava com desvelo maternal”, na lembrança do rapaz. O Professor recebia os visitantes na rede ou na cadeira de balanço, com as pernas esticadas, de pijama e sandálias, a cabeleira grisalha despenteada e fumando o inseparável charuto que só abandonaria perto de morrer.

Roberto liga e recebe permissão de dona Dahlia para ir nessa tarde. Ele não é a única visita; há várias outras. Entre elas – recorda perfeitamente –, uma jovem do Paraná, filha do poeta Eno Theodoro Wanke, versada em Literatura e fascinada pelo etnógrafo. Têm muito que falar, conversam demais.

Ele fica inibido, mais escuta e observa do que fala. Respira o ambiente intelectual da casa. Sente-se bem. “Com 15 anos, não tinha repertório para conversar”. O Professor o trata com as honras reservadas aos que o visitam pela primeira vez. Leva-o para ver seu escritório e mostra-lhe a imagem do São José de Botas. “Se a visitante era moça, Cascudo a aconselhava a tocar no joelho da imagem para arranjar casamento”, lembra.

Nesse dia, Roberto vê pela primeira vez a cristaleira da família, repleta de condecorações, junto da qual Cascudo se esticava na cadeira de balanço, tragando o charuto. Uma foto dele nesse local, tirada em 1972, enfeita a parede do apartamento de Roberto. É a mesma que o escritor dedicou a seu tradutor francês, Bernard Alléguède, com a frase: “Como Anthero de Quental, fumo e cismo, sob a vigilância afetuosa de Bernard Alléguède e Jean Subirats”.

Roberto conhece a cadeira que pertenceu ao pai de Cascudo, privilégio dos visitantes mais queridos. O escritor os mandava sentar à sua direita, “ao alcance do seu ouvido são, reservado, como explicava, aos amigos verdadeiros; o esquerdo, atingido pela surdez, dizia, deixava a certos políticos…” Roberto observa a chegada do carteiro trazendo pilhas de cartas e livros de vários países. “Cascudo tem amigos no mundo todo”, admira-se.

Vai embora levando de presente Religião no Povo, com a dedicatória do autor: “Para o jovem Roberto da Silva, lembrança e esperança brasileira”. Junto da assinatura, a data: 27/07/74.

No final daquele ano, Roberto conclui o curso ginasial em Canguaretama e muda para Natal. A partir de 1975 (tem 16 anos), ele subirá os vinte degraus que levam ao sobrado da Junqueira Aires todas as semanas, durante os onze anos seguintes, até a morte de Cascudo, em 1986 (aos 87 anos). “Nos primeiros degraus, já se sentia a presença dele pelo cheiro do charuto e o perfume de alfazema que ele usava depois do banho”, lembra.

Central do Brasil

Corte na cena. Em 1976, Roberto é aprovado em um concurso para os Correios. Vai trabalhar no Centro de Triagem, o “coração” da empresa. Sua função é separar cartas que saem e chegam do interior para outros Estados e Países. Abre os malotes, confere, seleciona, coloca os envelopes nos escaninhos: de Fortaleza para Goianinha, de Goianinha para Mossoró, de Mossoró para João Pessoa… A eficiência é tanta que o Gerente de Operações Postais pergunta, pensando que é um veterano: “De que agência você veio?” Fica surpreso ao saber que ele nunca havia feito aquilo antes.

Para Roberto, manusear cartas é como estar em casa. Em Pedro Velho, adquirira a fama de ser “uma espécie de Dora, de Central do Brasil”, lembra. No filme de Walter Salles, Fernanda Montenegro escreve cartas para analfabetos numa estação de trens. No seu caso, a boa caligrafia e o hábito de se corresponder com a irmã Elione, que vivia em Natal nos anos 1960, atraíam vizinhos em busca dos serviços dele. Em troca, davam-lhe frutas, ovos, galinhas, brinquedos. “Foram meus primeiros trabalhos remunerados”, crê.

O filho de Nenem Bernardo era candango em Brasília. Outra senhora tinha família em São Paulo. Um rapaz enviava notícias para a noiva. Roberto lia em voz alta as cartas que traziam e escrevia as que ditavam. Ele guarda na memória esta cena: a família humilde, pai, mãe, três rapazes, todos parados à volta dele, menino de oito anos, “assistindo-o” escrever. E a lembrança da primeira carta fora do círculo familiar que recebeu: uma foto dos astronautas da Apolo 11, aqueles que pisaram na Lua pela primeira vez, com o carimbo da Nasa, remetida a seu pedido pelo Consulado Americano…

Agora, adulto, Roberto espera com ansiedade o meio-dia, quando sai da faculdade – ele está cursando Letras na Universidade Federal — e chega aos Correios, encontrando sua mesa lotada de preciosidades. É o que o consola do trabalho burocrático: ter acesso aos livros, revistas literárias, cartas de escritores e de institutos culturais que passam por suas mãos. Roberto copia os endereços. E começa a corresponder-se com vários autores, editoras, instituições.

Em O Carteiro e o Poeta, o que leva Mario a se aproximar de Neruda é a quantidade de cartas femininas que o poeta recebe. O carteiro conclui que a poesia atrai as mulheres, e ele quer escrever poemas para conquistar Beatrice. Já no movimento de Roberto em direção a Cascudo há algo além da admiração pelo escritor; também o fascínio pelo mundo dos letrados, do qual deseja fazer parte. “Meu prazer era ver Cascudo e sentir o ambiente em que ele vivia”, diz

Nessa altura, o rapaz já é “de casa” no sobrado da Junqueira Aires. Educado e atencioso, ganha a simpatia de outros membros da família: a filha de Cascudo, Anna Maria; a esposa, dona Dahlia; a cunhada, dona Yayá – apelido de Maria Leonor Freire, irmã de dona Dahlia, senhorinha que vive rezando, vestida de preto; a governanta Anália, “cria do pai de Cascudo”, Francisco Justino de Oliveira Cascudo, homem bem posicionado, coronel da Guarda Nacional.

Roberto observa a figura magrinha de Anália descer a ladeira a pé, nas tardes quentes de Natal, para postar a correspondência de Cascudo na agência Central da Ribeira, onde ele trabalha, e lhe vem uma idéia… Ele pode perfeitamente postar as cartas do escritor – será um prazer!

Dona Yayá, que já vinha pensando nessa possibilidade, pois gostava do rapaz, um dia se adianta às intenções dele:

“Ô Roberto, pode me fazer a fineza de levar minhas cartas ao correio? Mas não esqueça de colocar o cep…”

O carteiro do Cascudo

A partir daí, a família Câmara Cascudo ganha seu “carteiro de confiança”, “o moço da correspondência”, o amigo que trabalha nos Correios e atende com exclusividade aos moradores do sobrado. “Todos tinham total confiança em mim, pois sabiam que eu mesmo faria a postagem”, ele lembra. (Eram comuns na época os roubos e malandragens praticadas por maus funcionários). Dona Yayá o encarrega até das doações em dinheiro que costuma fazer para o Convento das Carmelitas de Teresópolis, no Rio de Janeiro.

Às vezes, Roberto faz visitas rápidas ao sobrado, só para tratar da correspondência. Em outras, o escritor o chama para conversar e ele o escuta longamente. Com sua memória extraordinária, Cascudo discorre com eloqüência sobre lugares, fatos, pessoas. Brincalhão, gosta de inventar apelidos. Batiza Roberto de Foguete. “Este menino vai longe”, brinca. “Corresponde-se com gente do mundo todo!”

“Dona Dahlia simpatizava comigo, pois me protegia demais”, acredita Roberto. Desde o início, a esposa de Cascudo é para ele uma “cúmplice”, avisando-o sobre as visitas que o marido espera. Assim, ele vai ao sobrado nesses dias, como se fosse por acaso, e dona Dahlia o conduz à sala onde Cascudo conversa, por exemplo, com a embaixatriz da Iugoslávia ou o casal Jorge Amado e Zélia – Roberto tem várias cartas que o escritor baiano lhe escreveu.

Assim se incrementam suas amizades epistolares com nomes ilustres. Nos álbuns há cartas de Plínio Doyle (escritor carioca dos “sabadoyles”, reuniões aos sábados freqüentadas por Drummond); a coreógrafa Dalal Ashcar; o crítico Hélio Pólvora; o poeta Menotti Del Picchia, os escritores Josué Montello, Pedro Nava, Homero Homem, Carmo Bernardes; Vilma Guimarães Rosa Reeves (filha de Guimarães Rosa); Manuel Diegues Júnior (pai do cineasta Cacá Diegues); o político Jânio Quadros etc. E instituições: Fundação Casa Rui Barbosa, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Instituto Indigenista Interamericano, do México etc. “No Arquivo Pedro Nava, da Fundação Casa Rui Barbosa, no Rio, foram catalogadas todas as cartas que enviei ao memorialista”, conta Roberto, feliz.

Os bons tempos do sobrado da Junqueira Aires têm seu auge em 1978, nas comemorações de 80 anos de Cascudo, e em 1979, quando ele recebe o troféu Juca Pato. A partir de 1980, a saúde do escritor começa a definhar. A cada dia perde mais a audição, até ficar completamente surdo. Sua visão será também seriamente comprometida, após uma cirurgia mal sucedida de catarata. Sofre das coronárias e de diabetes. É proibido de fumar.

Privado do charuto e dos doces que adorava, sem poder mais ler nem escrever, com dificuldade de locomoção até dentro de casa, ainda assim — escreve dona Dahlia ao amigo João Lyra Filho, em 10/02/83 — “a aceitação dele é evangélica, comove-me até, não se irrita, nem reclama. Diz que voltou a ser criança e que as coisas, em casa, passou a ver num ângulo diferente.”

Em outra carta, datada de 30/04/86, três meses antes da morte de Cascudo, sua esposa desabafa ao mesmo amigo:

Comovo-me bastante com a paciência e aceitação do Luís, jamais reclama. Mantém o espírito jovial e diz que suas limitações precárias são o ‘pedágio’ da vida longa, a ‘moeda’ a pagar pelos seus 87 anos. Que admirável….!”

Entre livros e cartas

Ambas as cartas fazem parte da obra Flama Serena: cartas de Luís da Câmara Cascudo a João Lyra Filho; organização, introdução e notas Roberto da Silva. Natal, RN: Sebo Vermelho, 2005.

É o terceiro livro da correspondência de Cascudo organizado pelo professor Roberto da Silva (ele deixou os Correios em meados de 1980), graduado em Letras-Francês pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Especialista em Literatura Francesa e em Literaturas Portuguesa e Brasileira. Os outros dois livros são Jasmins do Sobradinho: catálogo da correspondência de Cascudo para João Lyra Filho (2000) e Luis, toujours lui: cartas de Câmara Cascudo a Bernard Alléguède (2002).

Quando Neruda parte de Isla Calla di Sotto, deixa para Mario um caderno em branco para anotar poemas e provoca mudanças radicais naquele homem simples. Com espontaneidade tocante, o carteiro grava uma fita para Neruda, agradecendo-lhe por tudo o que lhe trouxe: agora ele é capaz de sentir a poesia nas belezas de sua ilha, diz. No som das ondas, ventos, redes de pesca, nos sinos da igreja, no céu estrelado, nas batidas do coração de Pablito…

Beatrice está grávida, mas o carteiro não conhecerá o filho. A moça entrega a fita ao poeta cinco anos depois, quando ele volta à ilha. Mario havia morrido numa manifestação comunista em que iria declamar um poema de Neruda. (O roteirista e ator Massimo Troisi, o carteiro, também morre após as filmagens, de ataque cardíaco).

Em nossa história, Cascudo é quem vai embora deste mundo. E também deixa para Roberto, aos 27 anos, um saldo positivo. Sem sua convivência, será que o menino teria se tornado um erudito?

O professor escolheu uma especialidade rara: a epistolografia. Neste tempo de escrita veloz e e-mails descuidados, Roberto é um epistológrafo, “aquele que cultiva a arte de escrever cartas”… usando caneta, papel, envelopes bonitos e selos escolhidos com carinho!

Sociável, organizado e metódico, ele gosta de receber visitas no apartamento arrumadíssimo, onde vive sozinho, entre cartas e estantes de livros. Às vezes, cozinha para os amigos. Um peixe no forno, por exemplo. Mas, em geral, são suas irmãs que cuidam da alimentação dele. Roberto se alimenta mesmo é de epístolas.

Não só das próprias – sua correspondência atual inclui, entre outros, os nomes do escritor português Cunha de Leiradella, que vive em Povoa de Lanhoso, nos contrafortes da Serra do Gerês; Bernard Alléguède, da França; José Augusto Carvalho, de Vitória, e, até há pouco, Sophia Lyra, que não escreve mais porque tem 103 anos.

Mas também cuida das cartas que outros trocaram. Depois de publicar sua dissertação de mestrado, em 1996 — Ruídos na Cristaleira: Cheiros e Vozes do Tempo, sobre a obra da memorialista mineira Raquel Jardim, da década de 1930 –, desde 2000 Roberto vem catalogando e divulgando a correspondência de Cascudo.

E quem imagina tratar-se de leitura aborrecida, é que não conhece os livros. Como diz a professora Sônia van Dijck no prefácio de Flama Serena, as cartas de Cascudo trazem “informações históricas, culturais e literárias”, presentificadas nas notas escritas por Roberto, que iluminam os fatos e os personagens mencionados. Que sabor não há em relembrar, por exemplo, os feitos heróicos dos pioneiros da aviação postal transatlântica da década de 1930, como os pilotos franceses Mermoz ou Saint Exupéry, amerrissando com seus hidroaviões no rio Potengi?

Ler as cartas que Cascudo trocou com os amigos é quase como subir os vinte degraus do sobrado da rua Junqueira Aires para sentar na varanda perfumada de dona Dahlia e ouvi-los conversar.

Foguete – talvez o escritor dissesse – chegou aonde pretendia.

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