Os mistérios de Ilhabela

Publicado em: Revista Ícaro Ponte Aérea, Fevereiro/1985 - Por Isabel Vieira


Histórias de piratas e tesouros, segredos que dão mais fascínio a um dos lugares mais encantadores do litoral brasileiro

Chovia a cântaros naquele longínquo dia de 1949, dificultando cada vez mais os passos dos dois homens que se embrenhavam na mata. Desafiando precipícios de 200 metros de altura sobre o mar, enormes rochedos, árvores gigantescas e a densa vegetação que esconde escorpiões e cobras neste que é um dos trechos mais selvagens e acidentados da costa leste de Ilhabela, no litoral norte paulista, o engenheiro belga Paul Ferdinand Thiry e seu acompanhante – um oficial do Serviço Secreto da Marinha –, encharcados até os ossos, extenuados e já desesperançados, nas mãos o facão, a lanterna, um mapa e um roteiro, seguiam em suas buscas.

O mapa havia sido encontrado na Índia, em 1852. O roteiro, em 1888, no Paraná, Sul do Brasil. Em 1939, o jornal carioca A Noite publicara ambos, sob o título: “Quem quiser achar uma ilha com um tesouro, acompanhe este mapa”. A recompensa? Cerca de 20 volumes contendo ouro amoedado e em barras, diamantes, esmeraldas e – o mais importante – documentos guardados numa caixa lacrada, à parte, pertencentes ao Banco da Inglaterra, passíveis de elucidar pedaços nebulosos da história ocidental. Poderiam revelar, por exemplo, quem eram as organizações secretas que operavam nos mares da América nos séculos XVI e XVII, acautelando valores e escondendo-os em locais de difícil acesso da nossa costa. Quais os países europeus que as financiavam? Quem foram os mandatários desses saques?

Thiry lera a reportagem num trem de subúrbio, voltando do trabalho, no tempo em que executava obras de saneamento na Baixada Fluminense. Gosto pela aventura não faltava a esse homem baixo, magro, olhos azuis escondidos por trás de óculos de lentes grossas, cabelos ralos, barba sempre por fazer. Anos antes ele já havia se embrenhado nos confins do Brasil, alocando lotes que formariam o núcleo colonial de Dourados, em Mato Grosso. Isso para não desmentir a tradição aventureira da família: pois um parente seu não tentara matar De Gaulle? E seu pai não fora o primeiro homem a escalar o Pão-de-Açúcar, realizando os estudos iniciais para a instalação do bondinho?

Nem louco, nem crédulo: Paul Thiry era um cientista. Por dez anos estudou mapa e roteiro – de autoria provável de um marinheiro inglês –, ambos em linguagem cifrada, e, por um intrincado raciocínio pontilhado de conhecimentos de matemática e de homotetia (estudo de formas semelhantes), concluiu que o local era ali mesmo, no Saco do Sombrio, em Ilhabela, onde se encontrava agora graças à ajuda da Marinha Brasileira, que colocou um navio e sua tripulação para auxiliá-lo nas pesquisas.
Território de Piratas

Sim, ali mesmo, na encosta escarpada e íngreme, sem uma praia sequer, esconderijo predileto do lendário Thomas Cavendish, que nesse lugar teria se refugiado na fatídica noite de Natal de 1592, após atacar de surpresa a pacata população de Santos durante a Missa do Galo, saqueando e incendiando a cidade. Cavendish seria morto mais tarde por seus próprios homens, vítima de um motim a bordo provocado por uma epidemia de escorbuto. E foi para a Baía de Castelhanos, ao lado, que a tripulação rumou depois de pôr a pique as naus do maior e mais famoso pirata protegido pela corte britânica da época. O local era tão lindo e tranqüilo, as terras tão férteis e o mar tão piscoso que os corsário esqueceram sua ferocidade e trataram de plantar roça, pescar, criar família. Nunca mais saíram de lá.

Provas? Veja os cabelos loiros e os olhos azuis dos caiçaras que ali vivem e acredite que nem tudo são lendas quando se fala nos mistérios de Ilhabela – imensa montanha em frente de São Sebastião, a 200 quilômetros de São Paulo, com 80% dos 340 quilômetros quadrados de área cobertos pela densa floresta tropical povoada de pássaros, animais e árvores lindas e raras.

Que piratas ingleses, holandeses e franceses conheciam o Sombrio, onde abasteciam os navios de água doce (abundante na região) antes de partir para novos ataques, é comprovado. Thiry sabia disso. Mas para que o tesouro estivesse ali era preciso achar um marco. Uma inscrição prevista no roteiro, uma de tantas que delimitariam a área da caverna encimada por cinco grandes pedras, dentro da qual estariam enterrados os documentos e as barras de ouro.

De repente, já a cinco quilômetros mata adentro, quase desistindo de prosseguir, os dois homens estacaram, atônitos. Num local inacessível, uma pedra arredondada exibia a gravação de um quadrado simétrico, contornando as letras GM e J, ao lado de um coração. Era a prova que faltava: a inscrição representava um símbolo matemático, concluiu Thiry. Referia-se à gênese matemática aplicada ao órgão vital do sistema, o coração, e à descoberta de grandes valores, representada pela letra J. Estava no caminho certo. Um caminho que iria ocupá-lo pelos próximos 30 anos de vida.

Escravos e almas penadas

Não existe estrada ligando a vila de Ilhabela, do lado do canal, a essa parte da costa que dá para mar aberto, entre as Pontas da Pirabura e Cabeçuda. Uma escola abandonada, o quadro-negro e os bancos cobertos de poeira, entre meia dúzia de casas de pescadores em pau-a-pique: foi para lá que o velho engenheiro levou um catre, rolos de fumo de corda, mapas, seu esquadro e sua régua de cálculo. Ali, sozinho – ou na companhia dos fantasmas que rondam a região –, foi encontrando, um a um, todos os marcos previstos no roteiro.

Os fantasmas, desafiou-os. Certa vez, homens contratados por Thiry para desmatar áreas para escavações beberam água de uma cachoeira e dormiram durante três dias. Obra das almas penadas dos piratas? Ou das de escravos contrabandeados da África, depois que seu tráfico foi proibido, e desembarcados ali perto, no esconderijo da Laje Preta, obrigados a atravessar a pé até o outro lado da ilha, numa caminhada de dias e dias, cercados de todos os perigos? Os poucos que conseguiam sobreviver eram vendidos a peso de ouro; o árduo percurso servia como prova de resistência.

E havia um fazendeiro cruel, o Castelhano – que daria nome à baía onde se situa o Sombrio –, e uma senhora perversa, que acabou sendo morta e esquartejada por um escravo enfurecido. Ela mandara mancar a pancadas sua escrava preferida. Só porque a moça esperava um filho do infeliz.

Todas essas almas, diz-se, perambulam na mata nas noites de lua cheia, prova de que Monan – a divindade suprema dos índios tupinambás, que pregava paz e respeito à natureza – nunca se conformou com as desgraças que se abateram sobre a terra de seus filhos. Maerim ou Ciribae se chamava a ilha no início dos tempos, quando tudo era calma e fartura, os nativos pescavam nas águas cristalinas e construíam canoas com cascas de árvores. Velozes, ágeis, leves, capazes de surpreender o mais esperto dos inimigos. Menos aquele que veio do além-mar e decretou o fim do “lugar calmo e repousante” (tradução de Maerim e Ciribae), descobrindo a Ilha de São Sebastião, que três séculos mais tarde se chamaria Vila Bela da Princesa, Vila Bela, Formosa e, finalmente, Ilhabela. Isso foi em 1502. Seu nome era Américo Vespuccio.

Seria também castigo de Monan que tanto navio tenha naufragado naquela costa? Há quem fale em trinta, há quem fale em uma centena, mas a verdade é que a ilha é um cemitério de navios. A razão que se dá para isso é um fenômeno pouco estudado, o “azougue” no linguajar caiçara. As rochas da costa, nas imediações da Ponta da Pirabura, têm grande quantidade de urânio. Ou seja: são imantadas. E descontrolam as bússolas das embarcações.

Numa noite de carnaval de 1916, o navio espanhol Príncipe de Astúrias passava por ali. Luxuoso e enorme, com 150 metros de comprimento e 17 toneladas de peso, levava nobres espanhóis, banqueiros europeus e milhões de libras esterlinas para Buenos Aires. Ninguém jamais soube explicar como o comandante José Lotina, marujo experiente, não conseguiu impedir o choque que rasgou o casco do transatlântico ao meio na Ponta do Boi, pouco antes de Pirabura. “Era como se algo inexplicável atraísse o navio para as pedras”, diria um marinheiro sobrevivente, jurando que a bússola apontava na direção certa. Saldo da catástrofe: 477 mortos. O Attilio, em 1905; o Velasquez, em 1908; o Whator, em 1909; o Teresina, o Siegmund e o Aymoré, os três em 1920, e tantos outros, tiveram a mesma sorte.

Mas houve também naufrágios pitorescos. O Concar, afundado em 1959 no mesmo local do Príncipe de Astúrias, só trouxe alegria aos caiçaras: o carregamento de azeitonas e óleo de oliva foi dar nas praias e durante meses eles fritaram o peixe no perfumado azeite espanhol.
Encontrar o tesouro… Quer tentar?

Mas Paul Ferdinand Thiry, o caçador de tesouros, não tinha medo de nenhum desses fantasmas. Digo não tinha porque ele morreu há seis anos, em 1979, depois de três décadas de privação e solidão na casinha do Sombrio, só visitado pelo filho Roberto e pelo amigo Osmar Soalheiro, que vive em São Sebastião e lhe levava víveres de barco.

Não, Thiry não encontrou o tesouro, se é isso que vocês querem saber. Chegou bem perto dele, é verdade. Localizou todas as inscrições e conseguiu delimitar, numa área inicial de 20 mil metros quadrados, um trecho de apenas 400 metros quadrados onde deverá estar a “cavidade fechada e lacrada, fácil de ser aberta”, de que falava o marinheiro inglês.

Nem tão fácil. A erosão, as chuvas e a exuberância da vegetação mudaram tanto o terreno, que encontrá-la é obra que um homem não pode realizar sozinho. O governo brasileiro só ajudou Thiry no primeiro ano de buscas. E ele morreu sem concluir seu livro, onde pretendia elucidar a origem do tesouro – se é que existia mesmo um tesouro…

Que bens seriam esses, afinal, que organizações clandestinas guardavam para governos e/ou sociedades secretas da época? Saques de procedências diversas? Ou o famoso tesouro do Peru, roubado pelos espanhóis em 1822, quando as tropas do general San Martín libertaram o país? Thiry achava que Alexandre Dumas não fez ficção quando escreveu O Conde de Monte Cristo. A história do marujo Dantès e do Abade Faria, que o escritor teria descoberto num presídio da França, só podia ser verdadeira, pensava ele.

Isso nunca saberemos. A menos que você, curioso e aventureiro, decida desvendar este mistério. Não é impossível viver no Sombrio, desde que se tomem algumas precauções. Exemplo: não perca tempo se lhe acontecer ver, nas águas de uma cachoeira, uma luz azulada em forma de olho. Dizem os mateiros que é o “encanto do diamante”, uma pedra de incalculável valor que foge quando se tenta agarrá-la. Até hoje, ninguém conseguiu…

E jamais corte uma carapoca, cipó que envolve grandes árvores, dono de uma força espantosa, apesar de sua pequenez. Quem corta uma carapoca se perde na mata, garantem os caiçaras. E nunca mais é achado. Não duvide!

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