Rosa dos séculos

Publicado em: Revista Claudia / Dezembro de 1999 - Por Isabel Vieira


Dos bondes puxados por burros aos aviões a jato, a paulistana Rosa Rinaldi dos Santos testemunhou todas as transformações deste século. Nascida em 1899, lúcida e ativa aos 100 anos de idade, ela se prepara para entrar no ano 2000 sem nunca ter tomado remédios. É um caso raro de quem assiste, pela segunda vez, à virada de um século no calendário

Na passagem do ano de 1900, Rosa Rinaldi dos Santos era uma criança de colo. Quando nasceu, não existia luz elétrica, bondes puxados por burros atolavam nas ruas da capital paulista e Chiquinha Gonzaga estava prestes a lançar o primeiro sucesso, O Abre Alas. O Brasil era uma jovem república de apenas dez anos. Varíola e febre amarela constituíam perigos gravíssimos para os 17 milhões de habitantes que o país possuía — número similar ao dos que vivem, hoje, somente na Grande São Paulo.

Mas doença é algo que nunca preocupou dona Rosa. Desde que veio ao mundo, em 7 de agosto de 1899, ela precisou de médico uma única vez, para operar o estrabismo (sem anestesia, que na época não se usava), aos 9 anos de idade. Em 1917, quando a epidemia de gripe espanhola bateu à porta da família, curou-se com chás. Os filhos nasceram com parteira. Aos 100 anos, nunca tomou remédios e tem a pressão arterial de uma jovem: 13 por 8.

A virada do ano 2000 encontrará essa paulistana nascida na Barra Funda, filha dos colonos italianos Maria Prandi e Caetano Rinaldi, num apartamento na agitada Avenida Faria Lima, zona sul de São Paulo, onde ela vive com a filha Altair desde que enviuvou, 38 anos atrás. Os três filhos, sete netos e dez bisnetos vão comemorar com champanha. Afinal, são poucas as pessoas que têm o privilégio de viver o suficiente para conhecer três séculos.

Receita de longevidade

E viver muito bem, obrigada. A rotina da Nona, como carinhosamente é chamada, desafia os manuais de longevidade. Nada de dietas pobres em açúcar e gorduras, por exemplo. Dona Rosa adora torresmo, salame, vinho, e não dispensa uma caipirinha antes da feijoada. Come de tudo a qualquer hora. Não é raro abrir a geladeira tarde da noite para provar uma manga ou uma melancia. “Estômago não tem olho para ver o relógio”, costuma explicar.

Seu dia começa às 9 da manhã com café com leite e um pãozinho. Em seguida, faz as camas, varre o chão, tira o pó e prepara o almoço. Se tem visitas, capricha no nhoque ou no macarrão caseiro. Quando Altair chega do trabalho voluntário num hospital, a mãe em geral já saiu. Subir os quarenta degraus de escada até o apartamento do neto Gerson, que mora no mesmo edifício, para ajudá-lo na limpeza é o exercício que as pernas firmes e sem varizes de dona Rosa praticam todos os dias.

A pele clara desconhece cosméticos, as unhas não sabem o que é esmalte, os lábios só vêem batom em ocasiões especialíssimas. A única vaidade da senhora é fazer permanente nos cabelos lisos. Para explicar a boa forma, ela pensa em duas hipóteses, rindo: “Sempre gostei de trabalhar. E de banana-nanica”.

O Quatrilho

Para o filho Milton, delegado aposentado e esportista, o segredo da mãe, além do bom humor, talvez esteja na facilidade para aceitar mudanças sem resistir ao tempo nem ao destino. “Ela sempre se adaptou ao presente, não parou no passado”, analisa. “Até poucos anos, andava de moto na garupa dos netos e viajava de avião para Fortaleza para ver a irmã sem medo algum.” É possível que essa flexibilidade remonte a uma experiência infantil. Os pais de dona Rosa protagonizaram uma história semelhante à contada por Fábio Barreto no filme O Quatrilho, que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1996.

Ela tinha 5 anos quando o marceneiro Caetano Rinaldi mudou para o Rio de Janeiro, com Maria e três filhos (Rosa era a mais velha), para um trabalho de poucos meses. Na casa ao lado morava o alfaiate Chico, que deixara a família na Itália para tentar a sorte no Brasil. A mãe de Rosa se apaixonou por ele e fugiram juntos. Um dia, a esposa do italiano chegou com dois filhos e bateu à porta vizinha para saber do marido. Rinaldi explicou que “o desgraçado” levara sua mulher e ofereceu-lhe pouso. Assim ela cuidaria dos filhos dele. “Minha madrasta bateu na porta certa”, diverte-se dona Rosa. “Deram-se tão bem que viveram juntos cinqüenta anos e tiveram sete filhos.”

O novo casal e sua numerosa prole instalaram-se no bairro do Belém, zona leste de São Paulo, de onde dona Rosa só sairia sessenta anos depois, ao ficar viúva. Teve raros contatos com a mãe, já adulta. “Adotou” a madrasta em seu lugar e se integrou à vida daquele bairro operário, que, nas primeiras décadas do século, utilizava a farta e barata mão-de-obra infantil em suas indústrias.

Em 1908, quando Rosa e as irmãs se tornaram tecelãs numa empresa do Grupo Matarazzo, mulheres e crianças constituíam 70% dos trabalhadores do setor têxtil. Não havia legislação trabalhista e a menina de 9 anos labutava nos fusos 12 horas diárias, ganhando 40% do salário de um adulto. “Hoje as pessoas trabalham 4 horas e ficam cansadas”, constata dona Rosa, sem amargura. Sempre bem humorada, ela driblava o feitor, encarregado da vigilância, e fugia para a “escola” do professor Tamanco, um português aposentado cujo hobby era ensinar a cartilha à meninada. Com ele prendeu a ler, a escrever e a fazer contas “de cabeça.” Nunca mais esqueceu. “É só me dar muito dinheiro que eu somo agora mesmo!”, garante.

Casamento e filhos

Foi num baile operário que dona Rosa conheceu seu marido. O carioca Alfredo Pereira dos Santos era enfermeiro e bonito. “Estava assim de mulher atrás dele, ó!”, lembra, orgulhosa, os olhos perdidos na lembrança desse amor antigo. Tudo perfeito, a não ser por um detalhe: o rapaz era mulato, o que chocou a comunidade de italianos. Fazia apenas vinte anos que a escravatura tinha sido abolida e não era comum uma moça loiríssima cruzar a rua de braço dado com um homem de cor. Rosa bateu o pé e conquistou o direito de namorar no sofá da sala, sob os olhos vigilantes dos pais e irmãos.

“Só nos beijamos uma vez antes de casar”, conta. “Naquele tempo não era como hoje, que os dois mal se conhecem e já dormem juntos.” O tom não é de crítica. A centenária Nona não implica com os comportamentos dos netos e bisnetos, apenas lhes suplica: “Vão para o motel, façam o favor de não me trazer a moça ou o rapaz para dentro de casa. Isso é desrespeito para com a família”.

O casamento, em 9 de agosto de 1923, foi tão discreto e simples que não teve fotografia. No fundo, o pai e a madrasta não faziam gosto na união.

Mas dona Rosa garante ter sido muito feliz nos 38 anos que viveu com o marido. Parou de trabalhar e, exceto num período em que Alfredo ficou desempregado e ela voltou à fábrica, dedicou-se inteiramente aos filhos Nair, Altair e Milton, que nasceram em 1924, 1927 e 1931.

Grávida da mais velha, ela recorda um fato marcante na história do país: a revolução tenentista. A oficialidade jovem do Exército se rebelou contra o governo do Marechal Hermes da Fonseca exigindo reformas, entre as quais o voto secreto e a obrigatoriedade do ensino primário. Os operários paulistas aderiram à luta. Houve invasões de fábricas, saques e correrias. “Vieram chamar o Alfredo para fazer trincheiras, mas eu coloquei o barrigão na frente e o impedi de sair de casa.” A Nona sempre foi de paz, e com a velhice essa característica se acentuou mais ainda.

De bem com a vida

Quando não está na faina doméstica, dona Rosa senta à frente da tevê e se distrai fazendo crochê enquanto assiste a noticiários e novelas. Trabalha com agulha de metal número 3, finíssima. Os delicados pontos com que tece toalhas e bainhas de pano de prato foram ensinados pela madrasta quando era menina. Atualmente, só sai de casa acompanhada, mas até poucos anos atrás ia sozinha ao bairro do Belém, de ônibus, rever os parentes e amigos.

“Os motoristas da linha já a conheciam e a auxiliavam a descer”, conta a filha Altair, que tampouco aparenta seus 72 anos de idade. “Mal” de família: Nair, com 75, e Milton, com 68, também parecem muito mais jovens. É ele quem recorda: “E o pianista cego que a senhora ajudava a atravessar a rua, mãe?” Dona Rosa ri da lembrança. O rapaz tocava numa boate da redondeza e sempre que vinham da zona leste no mesmo ônibus ela o levava até o local. “As pessoas diziam: ‘Olha a Rosa de braço dado com um homem!’”

Católica fervorosa, diariamente, ao meio-dia, ela pára suas atividades para rezar pelos filhos, netos e bisnetos. Também pede pela paz no mundo (“Que anda cheio de perigos e de crimes”) e para que, quando chegar sua hora, tenha uma morte tão boa quanto o tempo que está passando na Terra.

“Não posso me queixar. Deus me deu 100 anos e sabe lá quantos mais ainda vou ter. Só quero ir embora dormindo, sem dar trabalho a ninguém. Gosto muito de viver, mas estou pronta para quando Ele me chamar.”

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