Sem teto/A pequena Graciene, morta

Publicado em: Jornal da Tarde, Dezembro/1982 - Por Isabel Vieira


Desabamentos de casas foram a principal conseqüência da chuva que caiu ontem de madrugada. Num deles, uma menina de dois anos morreu

Na hora em que Graciene da Silva Soares estava sendo enterrada, seu irmãozinho Marcelo, de 6 anos, mostrava-se quase feliz. Ganhou um panetone enorme de presente e sorria para os repórteres, posando para uma foto junto com a mãe, Lucimara, e os dois irmãos menores – Sônia, de 4 anos, e Antônio Carlos, de 1 –, na primeira construção de tijolos, com telhado, banheiro, comida farta e roupas quentes que conheceu na vida.

A “casa” que ele passou a ter ontem, embora provisoriamente, é uma sala vazia do Grupo Escolar Raul Saad, em Diadema. E o pai das crianças, o pedreiro Adesino Ferreira da Silva, nem tinha ainda podido avaliar a solidariedade dos vizinhos, dos amigos, do pessoal da prefeitura e da assistência social, que levou tanta coisa para sua família. Ele estava ausente. Só ele foi ao enterro da filha.

Sua mulher, Lucimara, talvez durma bem nesta “casa” nova. Em parte pela injeção de calmante que lhe aplicaram, em parte porque hoje ela sabe que, embora apertados num único colchão – um dos presentes que ganhou –, pelo menos os outros três filhos estarão mais seguros do que no barraco em que a família morava.

Dormindo bastante, talvez ela consiga esquecer tudo aquilo que ficou enterrado debaixo da lama, na favela do Jardim Luso, ao lado do grupo escolar, sob os olhares assustados das 250 famílias que ali vivem. Sua comadre Lúcia, do barraco número 17, acordada com os gritos de Lucimara às 6 horas da manhã, repete sem cessar que prefere ir morar embaixo de um viaduto a continuar num lugar como aquele. E o vizinho Adeilto Severino da Silva, que sempre temeu – e até previu – um desastre assim, já mandou ontem mesmo a mulher, os quatro filhos e os dois cunhados, que vivem junto, para um local mais seguro, a casa de uns parentes bem longe dali. E fica a cismar pensativo, coçando o queixo, sem desgrudar os olhos do fundo do vale que é só lama, apontando seu barraco no meio dos outros: “Não sei se saio, se fico, se faço uma proteção”. Mas daí a instantes responde para ele mesmo: “Que proteção, que nada! Quando esse barranco vem, quem segura?”

Carlos Alberto Félix da Silva, tecelão numa empresa da rua do Oratório, na Mooca, até já sabe quem é o culpado por tudo o que aconteceu. Ele tinha saído de casa às 5 da manhã, pois entra às 7 no serviço, e lá pelas 9 horas recebeu um telefonema da mulher para voltar urgentemente. Gastou Cr$ 1800,00 num táxi para chegar a Diadema. Ele acha que o culpado de tudo é um tal de Geraldo, sujeito que apareceu na favela há uns três meses e “está fazendo comércio de barraco”. Montou uma vendinha de frente para o asfalto, ao lado do grupo escolar, vendinha que na verdade esconde outros negócios, segundo acusam Carlos Alberto, Adeilto e outros vizinhos: “Ele tem três mesas de sinuca ali dentro e só acoita bandido”. Ontem, Geraldo fechou a vendinha e ninguém sabia onde ele estava.

Esses homens têm até saudades do tempo em que o esgoto do grupo escolar corria por trás do lugar onde hoje está a vendinha, um declive violento que termina no fundo do vale. “A diretora do grupo não deixava ninguém construir em cima do cano”, explicam. E, nesse ponto, o benefício que a nova diretora fez, desviando o esgoto para a galeria apropriada na rua, há cerca de dois anos, foi que lhes trouxe problemas, dizem.

“O tal Geraldo começou a fazer um aterro para construir mais barracos para alugar”, conta Carlos Alberto, revoltado porque “o homem já tem quatro barracos, não pára nunca”. E foi esse aterro que deslizou. “A água entrou na terra e estourou por baixo”, explica ele. “Aconteceu isso porque ele fechou o caminho da água”.

O barraco de Lucimara e Adesino ficava junto do aterro de Geraldo, bem ali onde “a água não podia passar e estourou”. Dele só resta agora uma parede de madeira, coberta com recortes de revistas e jornais. Debaixo de muita lama estão uma cama de casal, um berço, um guarda-roupa, um armário de cozinha, fogão, geladeira, e todos os mantimentos que Lucimara tinha comprado sábado passado, para o mês todo. E seis mil cruzeiros, a economia do casal.

No cemitério de Diadema está Graciene, de 2 anos, que dormia quando tudo aconteceu. Eram 6 horas da manhã, Lucimara fazia a marmita do marido com o bebê de 1 ano no colo, e nem ligou para o fio de água barrenta que entrava porta adentro. Só se deu conta da tragédia quando o morro veio abaixo. Marcelo, de 6 anos, ficou preso debaixo dos paus; Sônia, de 4, saiu correndo para fora e Lucimara lembra ter jogado o pequeno Antônio Carlos nos braços de alguma vizinha.

Lembra-se também, nitidamente, de uma outra cena, antes que os bombeiros chegassem e retirassem Graciene do meio dos escombros, toda suja de terra:

— Meu marido parecia louco. Levantou um caibro com a perna, com uma força que nunca teve, só para salvar Marcelo. Depois olhou para mim, abraçou e perguntou: “Cadê a Graciene?”

— A gente tem que se conformar –, diz uma vizinha, confortando Lucimara, enquanto as crianças maiores comem panetone na sala do grupo escolar e as serventes Bibiana e Heloísa, inconformadas e penalizadas, se desdobram em cuidados para com a família.

— É, tem mesmo. Deus sabe o que faz – responde Lucimara.

Fale Comigo

Entre em contato ou agende uma palestra