Senhor das Raízes

Publicado em: Site Texto Vivo / Outubro de 2006 - Por Isabel Vieira


Na margem direita do rio Madeira, a mais de 2500 quilômetros do Distrito Federal, fica a capital de Rondônia, Porto Velho. É uma cidade esfumaçada pelas queimadas, enevoada pela umidade, onde faz um calor de pingar.

Porto Velho tem 350 mil habitantes e todos esses habitantes guardam na memória alguma história da ferrovia Madeira-Mamoré. Um avô que veio de Barbados para trabalhar na construção e morreu de beribéri. O tio maquinista que perdeu o emprego quando as linhas foram desativadas. Lembranças dos vagões cortados ao meio e jogados na floresta durante o regime militar.

Os restos da ferrovia-fantasma apodrecem num hangar deplorável à beira do rio. Ali perto, junto do porto onde as “gaiolas” esperam passageiros, fica o Museu Ferroviário, num galpão que chegou em kits da Filadélfia numa época em que se acreditava que a Madeira-Mamoré levaria a borracha da Bolívia para o mundo.

Agora, os móveis ingleses do século dezenove, as garrafas de Amsterdã, os dormentes da Austrália, a locomotiva Cel. Church — que veio da Inglaterra em 1879 e foi a primeira a correr pelos trilhos —, “tudo está se acabando” (diz Lázaro, que trabalha no museu e não se conforma) entre os vôos rasantes das pombas e as fezes das andorinhas, que se abrigam no galpão no tempo de chuva.

Os fundos do museu dão para a Praça Madeira-Mamoré. Do outro lado dela fica o Mercado Central, na avenida Percival Farquar. É o nome do empresário americano que, em 1907, criou a Madeira Mamoré Railway Co. e projetou Porto Velho com modernidades como energia elétrica, fábrica de gelo, água encanada, um hospital com trezentos leitos e dois jornais editados em inglês.

Mas o Mercado Central de Porto Velho é um prédio feio, baixo, coberto com telhas de eternite, sem o encanto das fachadas árabes e portuguesas da década de 1920, quando a cidade começou a se expandir. É nesse mercado que Galdino, o Dr. Raiz, tem o seu, digamos assim, consultório.

Raizeiro aéreo

Seria de se esperar que um raizeiro da Amazônia fosse um homem de sustentação firme, sem rachaduras em suas crenças, bem fincado no solo. Mas quem se aproxima das bancas 40, 41 e 42 – unidas no mesmo negócio – encontra um indivíduo evasivo, zeloso de si, quase desconfiado.

— Aprendi a ter minhas coisas guardadas. Quem quiser receita eu dou, mas não digo o que é. Se não confiar em mim, não leva.

Enquanto fala, o Dr. Raiz aperta os olhinhos redondos de um jeito que faz as sobrancelhas grossas se aproximarem e deixa um vinco vertical, espécie de interrogação, entre elas.

É um caboclo robusto, baixinho, na faixa dos sessenta anos. O cabelo grisalho ainda é farto, apesar das entradas dos dois lados do crânio. As orelhas, grandes demais para as feições miúdas, põem em evidência o nariz achatado e o queixo diminuído, como se o rosto acabasse antes de estar pronto. A boca pequena é disfarçada por um bigodinho à la cantores da era do rádio. Porém, em vez de música, é uma frase cortante que sai de sua garganta:

— Na minha banca não tem patente. As plantas são de todos, qualquer um pode levar.

A acolhida pouco amistosa com os forasteiros muda quando Galdino reconhece sua freguesia habitual. Não que ele se derreta em gentilezas com quem recorre a seus préstimos, sinalizados pela placa que pende do teto com os dizeres: “Galdino, Dr. Raiz. Casa das Plantas Medicinais NOVA VIDA. Faço garrafada contra as doenças. Vende-se plantas do Amazônas. Mercado Central bancas 40, 41 e 42. Porto Velho (RO). Grato pela Visita.” Ao contrário: o raizeiro chega a ser rude com um rapaz que busca alívio para a gripe e fica indeciso entre as três opções de remédios que ele oferece.

— O de 5 reais é tão bom como o de 10 e o de 15?

—É a mesma coisa.

— Como pode o de 5 ser igual ao de 15?

— Se não confiar em mim, não leva.

Encabulado, o freguês escolhe o de preço intermediário.

Mas, em geral, Galdino tenta ser simpático com as pessoas que o consultam; e quase consegue.

O cavalheiro grisalho procura garrafada de andiroba, “que cura qualquer dor”. A moça de óculos leva óleo quente para o nervo ciático e banha de peixe elétrico para dor muscular. A candidata a deputada pede o apoio do Dr. Raiz para sua campanha e deixa santinhos para ele distribuir. Dois turistas mato-grossenses se encantam com os chapéus de pele de jacaré. Galdino lhes oferece um espelho. Eles experimentam, se olham e aprovam.

Garrafadas contra doenças

Logo se percebe que o raizeiro não é especialista apenas em raízes, mas também em caules, folhas, frutos, sementes e tudo o mais que a imaginação puder conceber.

A Casa de Plantas Medicinais NOVA VIDA é forrada por prateleiras com sacos plásticos cheios de ervas secas, uns pretos, outros transparentes. Entre eles há pacotes de velas de sete dias, caixas com Sebo de Holanda marca Carneiro, caixinhas verdes com banha de peixe elétrico, caixinhas amarelas com banha de peixe boi, rolhas avulsas e garrafas de todos os formatos e tamanhos. Os vasilhames, de refrigerante – um deles de Fanta gigante –, abrigam líquidos de cores terrosas. São as garrafadas contra doenças.

Do teto pendem peixes secos, lamparinas pintadas de azul e vermelho, pesados sinos de metal, funis unidos por um barbante, dois pares de chifres de boi e raízes com mais de um metro de comprimento, que Galdino afasta com as mãos quando precisa procurar algo nas caixas de papelão sobre o balcão.

Deve ser o remédio para varizes e má circulação que uma moça está pedindo… Dr. Raiz remexe na caixa, empurra para um canto do balcão um castiçal dourado de sete braços – uma menorá judaica, também à venda – e separa pacotes de cavalinha, chapéu de couro, unha de gato e cipó tuíra. Manda-a ferver a mistura em dois litros de água e tomar meio copo cinco vezes ao dia – e pronto, garante: a perna logo vai desinchar

O resto do mobiliário consiste em um freezer horizontal e uma espreguiçadeira feita com tiras de plástico preto, do tipo conhecido por “macarrão”, única peça confortável ali dentro. Mas é raro Galdino ter tempo de sentar, pois o movimento é sempre assim, intenso.

Cearense com amazonense

— Conheço 250 tipos de ervas – confessa o doutor, sinalizando uma aproximação. – Nasci com o dom, sabe? E há vinte anos venho me aperfeiçoando.

— O senhor nasceu onde? Quando?

Ao ouvir a pergunta, o rosto se ilumina na camisa azul, cor de Oxossi, a divindade do candomblé que corresponde ao São Jorge dos católicos. Há um quadro do santo guerreiro matando o dragão com sua lança em lugar de honra na banca.

— Preste atenção… – ele diz.

E, surpreendentemente, começa a cantar com uma voz afinada e bonita, na cadência dos repentistas do nordeste brasileiro:

“Nasci num dia bem cedo de manhã/ ali no rio Purus/ na boca do Igarapé Tupaã./ Filho de Francisco e de Maria/ Nordestino com amazonense”…

Peço detalhes, datas, histórias, mas Galdino não é homem de confidências. O máximo de concessão que faz é explicar:

— Igarapé Tupaã é lugar de cearense. E agora chega, que eu já falei bastante.

Em Porto Velho há 80% de imigrantes, a maioria do nordeste e do sul (mais recentes). No século dezenove, o êxodo de nordestinos para os seringais foi tremendo. Nos anos 1940, foi a vez dos “soldados da borracha”, recrutados pelo governo brasileiro durante a Segunda Guerra, quando o Japão bloqueou o fluxo da borracha asiática para os aliados. Cartazes acenando com o paraíso verde da Amazônia tiraram do sertão 60 mil homens – 30 mil deles cearenses – para recolher látex para os americanos. Metade morreu.

E houve os que vieram para a construção da Madeira-Mamoré. Operários de 52 nacionalidades rasgaram a floresta assentando trilhos: italianos, alemães, espanhóis, portugueses, caribenhos, antilhanos, chineses, franceses, indianos. Entre os brasileiros, os nordestinos eram a maioria.

— Já quebrei muita castanha, conheço a natureza. Ela não dá nada de bandeja, tem de conhecer – diz o Dr. Raiz, misterioso.

Biopirataria

A cantoria funciona como seiva para o raizeiro, dando-lhe novo vigor. Comovido, ele revela que desde jovem é membro de uma seita religiosa amazônica cujos praticantes bebem um chá feito com o cipó mariri e folhas do arbusto chacrona. É o Vegetal, como ele chama.

— Tudo que está adormecido desperta quando a pessoa bebe o Vegetal. Em mim, o Vegetal desperta a veia poética. Então tiro músicas de acordo com meu coração.

“Homem que é homem cobre sua mulher de felicidade”, ele se põe a cantar. “Mulher nasceu para ser bem-tratada, bem-amada, bem-zelada… lá lá lá…”

Abertas as comportas, Galdino fica falante.

— Tenho 23 filhos, a menor com dois anos.

— De quantas esposas?

— De cinco diferentes.

E o Dr. Raiz faz considerações sobre o sucesso no casamento. Não é bom o homem chegar em casa e encontrar a esposa vendo novela na televisão, por exemplo. Por causa de novela, sua mulher atual um dia chegou a queimar o feijão. Ele acha que, assim como o homem tem o dever de sustentar a esposa, ela tem o dever de esperar o marido com a comida pronta na mesa.

— Também não gosto que me perguntem para que serve cada planta – ele alfineta. – É assim que os gringos levam nossas coisas.

A história da Madeira-Mamoré é um exemplo. O primeiro caso de biopirataria na Amazônia. Em 1872, na tentativa inicial de construir a ferrovia, os ingleses da empreiteira Public Works deixaram o Brasil sem assentar um metro de trilho. Mas não de mãos vazias. Levaram as sementes da “hevea brasilienses”, que logo floresceu na Ásia. Foram esses seringais que desbancaram os da Amazônia no mercado internacional quando a Madeira-Mamoré ficou pronta, em 1912 — inviabilizando-a.

Mas Galdino, no fundo, é um otimista. Está convencido de que “as plantas são dádivas de Deus para curar as pessoas”, e que “a cura de todas as doenças vai acontecer um dia”.

— Há trilhões de plantas na Terra. O povo só tem que despertar e conhecer. O povo sabe de tudo. Se você juntar o que um sabe com o que o outro sabe, cura qualquer doença. Eu, por exemplo, aprendi muito com um amigo bioquímico. O mundo é assim: um aprende com o outro.

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