Uma viagem sem prazo para terminar

Publicado em: Jornal Folha Educação / Novembro de 1997 - Por Isabel Vieira


Antes de aprender a ler, os livros já exerciam sobre mim incrível fascínio. Ao longo dos anos juntei uma quantidade razoável deles, mantendo o hábito de organizá-los segundo a época em que chegaram, de modo que cada estante é um pedaço da minha vida. Nas muitas casas onde morei, sempre fui capaz de localizar exemplares impossíveis em minutos, estivessem eles espremidos num exíguo corredor, subindo pelas paredes da sala ou se derramando sobre cômodas e escrivaninhas.

O que me encantava em Jaci passeia de barco, de uma remota Charlotte Becker, na velha edição da Melhoramentos, com as páginas esfareladas pelo uso? Meu primeiro livro. Aos 4 anos, eu olhava as figuras e dizia de cor o texto que, sem ser alfabetizada, ouvira dos adultos. Entendo hoje que nada havia de extraordinário no piquenique que aquela família faz, com seu veleiro, numa ilha — exceto o fato de na minha infância interiorana não existirem barcos nem ilhas. Só muito mais tarde viria a saber, por Vargas Llosa, um de meus autores preferidos, que uma das razões por que as histórias nos fisgam é seu poder de nos transportar além do cotidiano, multiplicar horizontes, nos fazer “viver outras vidas”.

O psiquiatra austríaco Bruno Bettelhein menciona essa função da literatura no belo ensaio “Os livros essenciais da nossa vida”, o último que publicou antes de morrer, em 1990. Menino, ele se refugiava da dureza da guerra viajando ao passado, nos romances históricos, e ao futuro, nos de ficção científica. Na minha fuga para outros mundos, aos 10 anos deparei-me com Angelika – Gêli, a estranha, uma garota tímida como eu, mas que dava lições de valentia entre as montanhas nevadas de terras longínquas. Ainda guardo os quatro volumes traduzidos do alemão, em que se basearia uma das primeiras telenovelas brasileiras infantis apresentadas ao vivo.

A estante da adolescência tem Jack London e Júlio Verne de montão, eu adorava aventuras. Devorava as que achava na biblioteca do Colégio Culto à Ciência, em Campinas. Depois saltei dos romances açucarados de M. Delly para os de Jorge Amado (“imorais” nos critérios maternos), sem escala. Meu coração ainda bate com a emoção dos 14 anos, quando o tio Mário, nas férias em São Carlos, me liberou as obras que em casa eram proibidas. Até hoje considero Dona Flor imbatível como retrato da ambivalência amorosa feminina. Que mulher nunca se viu dividida entre a segurança e a paixão?

Com um professor especial, no colegial, aprendi bem mais que amar o poeta Carlos Drummond de Andrade (outras paixões dele, como o cinema, também passaram a ser minhas). Eu lhe devo o que sou, o que me tornei na vida adulta. Ele discutia Sartre de igual para igual, sem rir da jovenzinha que se pretendia existencialista, e me fez acreditar que um dia eu poderia escrever meus próprios livros.

Dentre as muitas paixões literárias posteriores, destaco Caio Fernando Abreu, o americano Paul Auster e os latino-americanos em geral (Vargas Llosa, García Márquez, Isabel Allende e outros), a quem dedico particular enlevo. Não sei se por uma irmandade de alma ou pelo idioma sonoro, jorrando pronomes, aprecio todos os que me caem nas mãos.

Li — leio — bastante, e ainda não dei conta da metade do que gostaria de conhecer. Leio para aprender, leio para me divertir. E quando a vida anda difícil, como agora, leio para fugir. Uma viagem que começou num veleiro rumo a uma ilha e não tem rota nem prazo para terminar.

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